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47. Herança dos Monstros

  Depois da batalha, o Coliseu se dissolvia em murmúrios. A poeira baixava, e ainda ecoava na mente de Ribeiro a frase do patr?o:

  


  “N?o posso permitir que você ganhe… meu filho.”

  Ele piscou. Co?ou a cabe?a. Olhou para Askiel, depois para o mini inseto. E ent?o encarou a névoa que tinha criado uma cabe?a extra em seu corpo.

  — Mas que porr-... névoa, mano…

  ele murmurou.

  — Tu acha que é ado??o? Ou filho mesmo?

  A névoa vibrou, confusa.

  — "Sei lá, porra."

  Ribeiro respondeu a si mesmo, cruzando os bra?os.

  — N?o parece nada com o patr?o… deve ser adotado.

  Pausa.

  Sorriso.

  — Vamos ver… hehe.

  E sem aviso, ele se teletransportou.

  A sala do patr?o era enorme e silenciosa. Mármores roxos, lampadas pendendo como estrelas mortas, e uma janela que mostrava o Coliseu como se fosse maquete.

  Ribeiro se jogou numa cadeira.

  Esperou.

  Esperou um pouco mais.

  Esperou até a paciência come?ar a derreter.

  Quando a porta se abriu, o patr?o congelou por meio segundo ao ver o intruso.

  — "Que porra tu tá fazendo aqui?"

  — Queria conversar. :3

  O patr?o esfregou a testa.

  — "Seja rápido."

  Ribeiro n?o enrolou:

  — Aquilo era mesmo seu filho?

  Silêncio.

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  Longo.

  Pesado.

  O patr?o fechou os olhos. Quando falou, sua voz vinha carregada de amea?a, mas havia algo mais: uma pontada de cansa?o, como quem carrega um nome que dói.

  — "Tenha… respeito… por meu filho. Ou eu explodo sua cabe?a."

  Ribeiro ergueu as m?os.

  — Calma, calma. Só tava curioso.

  O patr?o respirou fundo. Parte da fúria se dissolveu, dando lugar a algo mais íntimo, um remorso velho que ele tentava disfar?ar com dureza.

  — "Ele é meu filho biológico."

  Ribeiro arregalou os olhos.

  O patr?o deixou sair um suspiro curto, mais antigo que a raiva do olhar.

  — "A gente pertence a uma família antiga… e estranha."

  continuou, voz mais baixa.

  — "Com tradi??es de misturar humanos com monstros. Mas isso n?o explica tudo da aparência dele."

  O patr?o caminhou até a janela e pousou a m?o no peitoril, como se contivesse lembran?as.

  — "O que o tornou assim foi o uso indevido da habilidade da nossa linhagem: Vanspar."

  Ribeiro franziu a testa.

  — "O primeiro usuário, Ganpins, conhecido como 'As Duas Caras do Mundo', dominava essa habilidade. Ele podia fazer-se deus de si mesmo… ou do ambiente ao redor… por um breve período. Algo próximo ao divino, mesmo para um mero humano."

  Ele ergueu dois dedos, como quem pesa memória.

  — "Meu filho herdou uma vers?o inferior. Limitada. Mas ainda capaz de evoluir até o nível noventa"

  disse o patr?o, e a palavra vinha lenta, pesada.

  — "Nível noventa n?o é brincadeira; é a margem onde o poder deixa de ser ferramenta e vira catástrofe, o suficiente para amea?ar cidades inteiras se crescer sem freio."

  Ribeiro assoviou.

  — E a habilidade original?

  — "Quase infinita"

  o patr?o respondeu.

  — "E isso… responde sua pergunta sobre a aparência dele?"

  — Responde várias coisas...

  Ribeiro admitiu, apoiando o queixo.

  — E você? N?o tem essa habilidade?

  O patr?o riu, sem humor.

  — "N?o encontrei os registros. E hoje, meu poder n?o vem da linhagem. Vem dos contratos. Contratos com deuses menores… e um superior."

  Ele virou o rosto para Ribeiro.

  — "E você tem algum, semi-deus inferior? Vejamos... Das emo??es... E oculta??o? N?o era para ser apenas um?"

  O patr?o arqueou as sobrancelhas, estudando-o.

  — "Interessante… dois cargos ao mesmo tempo. Isso n?o devia acontecer... Duas energias... Hm..."

  Ribeiro piscou.

  — Eu sou um semi-deus?!

  — "Um inferior. N?o sabia?"

  o patr?o arqueou uma sobrancelha.

  — "Sua energia mostra isso."

  Ribeiro co?ou o queixo.

  — "Eu n?o vejo energia alheia ;-; Eu n?o tenho olhos, sabia?"

  O patr?o ficou em silêncio por dois segundos.

  — "…tá. Isso explica muito..."

  Ele n?o sorriu. Em vez disso acrescentou, com voz baixa:

  — "Semideuses despertos atraem aten??o. Nem toda aten??o é curiosidade; há olhos que n?o deixam nada em paz. Fica atento, garoto..."

  Ribeiro sorriu.

  E, naquele instante, pela primeira vez desde o torneio, o patr?o parecia menos distante. Menos titanico. Menos máscara.

  Humano?

  N?o exatamente.

  Mas algo entre os dois existiu ali:

  um fio de reconhecimento.

  curiosidade compartilhada.

  E talvez…

  um prenúncio.

  Porque heran?as monstruosas raramente ficam adormecidas.

  E agora, Ribeiro sabia demais para sair dali igual ao que entrou.

  Fim do capítulo.

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