Um vendaval formidável chacoalha a paisagem mórbida.
A névoa estremece como um véu enquanto o perigo ainda está à espreita.
Esse é um lugar corrupto, pois só de estar presente é um desafio.
O cheiro amargo e azedo consome as narinas, a sensa??o de ser observado perdura e a situa??o de encarar o completo desconhecido afrouxa os joelhos.
“Se acalme… Eu passei por Fyodor justamente pra essas situa??es.”
Os olhos de Raisel deslizam buscando algo além das árvores implacavelmente.
Para enfatizar a sua busca, a colora??o dourada sobre o olhar ganha ainda mais nitidez. Tal brilho ofusca os arredores sob a sua perspectiva, reduzindo toda a paisagem em uma visualiza??o energética.
Logo, assim como Yurgen havia dito, as Trevas atrapalham o visualizar da luz. O Gewissen nesse lugar está ondulante e curvo, sem perceber com exatid?o de onde vem a aura azulada que está mantendo os dois sob o efeito da ilus?o.
“Com o Zienung n?o vai dar…”
A espada em posse se deita enquanto os olhos dele se fecham.
Ao esticá-la para frente com a m?o destra, o palmo esquerdo pousou sobre a lateral da arma direcionada aos céus.
Separando os pés, o rapaz concentrou o seu ímpeto.
O dourado sobre o seu corpo é restrito como um contorno leve, uma silhueta cintilante naquele instante.
Um respirar profundo infla os seus pulm?es, mas revigora a sua determina??o.
Acima da cabe?a dele, a estrela que parecia ter desaparecido quando enfrentou Khinayen, reaparece.
Os olhos se abrem como uma explos?o. A íris amarela, antes imaculada, ganha destaque com um azul parcial vindo do fundo das suas pupilas.
“Kalte Welle!”
A própria voz ecoa da mente com voracidade!
Em um balan?ar único da espada em um círculo, a lamina corta o ch?o ao redor de Carmen e Yurgen.
Ao mesmo tempo, a luz dourada do menino no golpe sobe em uma espiral fluída encobrindo os vulneráveis como uma pilastra transparente rodopiante, um redemoinho.
No outro instante, ele toma uma postura de avan?o. Curiosamente, o olho esquerdo se fecha.
A arma é apontada em uma prepara??o de estocada, o ombro esquerdo está à frente enquanto as m?os est?o próximas do peitoral.
Liberando a concentra??o do seu Gewissen, a aura do menino se expande como um domo para os arredores. A expans?o é veloz ao ponto de iluminar a paisagem.
“N?o os sobreponha. Coloque eles um ao lado do outro…”
Nessa postura e prepara??o, o olho esquerdo fechado visualiza o Schaltung de Aquila dentro de si. Porém, ao mesmo tempo, o olho direito aberto mantém o Schaltung de Aquarius ativo.
O resultado de seu treinamento em poucas horas na sala da Toca da Gata, está aqui.
Após banhar a paisagem com a sua energia, o Zienung visualiza todo o ambiente com mais clareza.
Uma cabana está adiante. De lá é de onde vem a energia que prende a mulher e o velho na ilus?o.
A cabana é reduzida a um mero ponto brilhante em dourado.
Ent?o, a energia na espada come?a a fluir e a se concentrar na ponta.
Em um lapso, os bra?os de Raisel engatilham a estocada para frente.
“Zienung: Eisam!”
A perfura??o avan?a como um relampago em dire??o ao alvo cruzando e perfurando o que estiver em seu caminho.
N?o sabia ao certo o que ou quem está lá dentro do casebre, mas o ataque é forte o suficiente para alertar o inimigo.
Em um piscar de olhos, o feixe perfurante passa pelo casebre indo além das suas paredes.
Ao mesmo tempo, um urro agudo de dor ecoa pela paisagem.
As folhas secas pelo ch?o se levantam com a intensidade do berro.
“Eu atingi, mas n?o sei o qu?o grave foi…”
A névoa envolvendo o local come?a a ficar menos densa. De longe, a cabana é capaz de ser vista.
一 Raisel!
一 Ray!
A voz dos dois mentores vem de trás.
Em um suspiro de alívio ao se virar para eles, os olhos dele se abrem. A barreira que os protege se desfaz e a concentra??o para manter os dois Schaltung ativos é desfeita.
一 Vocês est?o bem?
A mulher encara o homem ao lado por alguns instantes.
De maneira meio desconfortável, eles riem.
一 Estamos… Vamos atrás de quem armou essa ilus?o. N?o perca o foco.
O velho convoca Svartgren que é devidamente empunhado.
A m?o da ruiva se estende e o seu florete também surge.
Enquanto caminham em dire??o ao malfeitor, um tremor de terra vindo de lá, os alerta.
A energia azulada dessa pessoa ganha ainda mais for?a ao ponto de envolver toda a cabana como uma névoa espectral.
Das janelas, projéteis de energia de diferentes tamanho sobem aos céus rasgando o ar.
一 é um feiticeiro!
A ruiva rapidamente toma à frente do grupo.
A m?o destra exp?e a arma na vertical à frente do corpo, os tornozelos bem unidos e a postura ereta, demonstram uma atmosfera nobre.
O dedo indicador e médio da m?o esquerda passa por toda a extens?o da lamina, de baixo até à ponta.
Com isso, a aura da mulher acompanha o deslizar dos dedos. A sua energia serrilha em faíscas por todo o armamento.
Os projéteis vindo do céu come?am a cair como trov?es. Mas Carmen n?o hesita ao encará-los.
A tempestade se aproxima cada vez mais, mas os dois logo atrás n?o est?o preocupados.
Quando finalmente est?o prestes a acertá-los, a ruiva move a espada uma única vez para a horizontal enquanto pisa firmemente contra o solo.
“Verkehrt: Fliessen!”
Nesse instante, uma quantidade abissal de cortes é gerada os envolvendo como uma cúpula. A ferocidade dos ataques eliminam com rapidez os incontáveis projéteis enquanto se expande cada vez mais.
Em poucos segundos, o ambiente se tornou caótico. As esferas, setas e lan?as de energia azul colidem como fogos de artifício e s?o desfeitas em partículas por cada corte.
As marcas das rupturas de todos os tamanhos feita por Carmen destruiu parte da paisagem, deixando as árvores mortas como mera poeira.
Com a calmaria após o conflito, a área aberta come?a a ser preenchida com uma dezena de silhuetas de pessoas.
一 S?o ilus?es?
O olhar de Raisel se dirige ao mentor.
一 N?o. S?o pessoas.
Um homem segurando um ancinho se aproxima do trio. Ele, por sua vez, tem lágrimas saindo de seus olhos e a sua express?o é completamente descontente.
Pelas vestimentas, parecia um camponês comum.
一 N?o ataquem a Bruxa da Floresta! Se n?o, vamos ter que parar vocês!
Ao fundo é visível as pessoas também preparadas para o combate. Mesmo com parte do corpo coberto pela neblina, provavelmente est?o com a mesma express?o desse homem.
O protagonista se prepara para o combate.
Entretanto, Yurgen e Carmen desconvocam as suas armas.
Paralisado, o garoto os encara.
一 N?o vamos atacá-la. Confie em mim.
O mentor toma à frente.
Nesse momento, as costas do velho arqueiro tapam a sua fei??o. Mas ao vê-lo, o camponês parece ficar mais tranquilo aos poucos.
一 Aproveite os seus sonhos. N?o vamos tirar isso de vocês.
Um sorriso discreto de lábios se estende pela barba grisalha. Mesmo n?o podendo ver os olhos acinzentados, é nítido que a express?o de Yurgen afetou o camponês.
Com lágrimas nos olhos, o semblante do homem segurando um ancinho se contorce. A cabe?a dele se abaixa, mas as sobrancelhas est?o contraídas. Lágrimas escorrem com mais for?a.
“Eles est?o tristes ou… felizes?”
A espada das cinco estrelas desaparece em poeira dourada.
Essas pessoas, por sua vez, pouco a pouco voltam a se perder no horizonte do nevoeiro.
Por outro lado, o caminho em dire??o a cabana está completamente livre.
一 Vamos.
A voz do mentor ganha destaque com o som de seus passos. Carmen, pela primeira vez em muito tempo, está em silêncio.
Ao fundo, é visível a porta da cabana se abrindo. Lá dentro, apenas o breu parece os esperar…
Subindo os poucos degraus para acessar a porta, a madeira está frágil ao ponto de sentirem o assoalho prestes a se partir.
Ent?o, eles v?o um de cada vez em dire??o ao lado de dentro da constru??o. O primeiro a ir é Yurgen, seguido por Carmen e Raisel.
Do lado de dentro, é ainda mais frio do que estar exposto ao sereno da madrugada. Diferente do cheiro azedo e amargo da corrup??o, esse lugar exala um odor de mofo e poeira.
Há poucas velas acesas do lado de dentro. é uma cabana pequena em meio à floresta. Por isso, há apenas três c?modos.
Caminhando da sala para o corredor, eles avan?am até um quarto mais ao fundo. O rastro de sangue do ferimento demonstra que o rapaz acertou a estocada de longa distancia.
Support the author by searching for the original publication of this novel.
Quando passou da porta do quarto, o velho paralisou. Carmen logo ao lado tem a mesma rea??o.
Desconfiado, o cora??o do menino come?a a bater com mais for?a.
O grunhir vindo do canto da parede, mostra uma pessoa resistindo a uma certa dor.
Ao ter os olhos dourados sobre a figura no c?modo pouco iluminado, vê uma garota com roupas esfarrapadas, um chapéu esquisito e uma cabeleira levemente ondulada dividida entre o preto predominante e as pontas esbranqui?adas.
Em um tom baixo, os lábios trêmulos emanam uma voz ruidosa e rouca:
一 O-O que… vocês querem?
Por entre os fios, é notável o tom de azul escuro dos seus olhos pulsando para fora. Ela está com medo ao ponto de tremer e estar recolhida no canto do quarto.
一 N?o vamos te fazer mal. Eu me chamo Yurgen, essa é a Carmen e o garoto é o Raisel.
Em silêncio, ela desliza os olhos sobre os três. Das laterais da cabe?a, algo parece se mexer. O cabelo volumoso abre espa?o para orelhas pontiagudas caídas.
“Uma meio-elfa…”
O olhar de Raisel se encontra com os olhos dela.
Quando isso acontece, o menino sente uma pontada vinda do peito. Uma dor insuportável ao ponto de fazer a sua consciência quase se esvair.
Em alguns passos para trás, o rapaz escora a m?o contra a porta.
“O que foi isso?”
Carmen o encara sem entender.
一 Tá tudo bem, Ray?
一 Sim… N?o foi nada…
Por algum motivo, o ar ao redor da ruiva está melancólico desde que despertou. Yurgen, por outro lado, n?o houve muita mudan?a. O seu olhar de tristeza é algo natural.
一 V-Você n?o me respondeu… O-O que querem?
De maneira áspera, a meio-elfa permanece desconfiada. Arisca como um gato.
一 E-Eu fiz vocês verem os seus m-melhores sonhos… P-Por que m-me atacaram?
Ela n?o parece entender o motivo de ser atacada. Os adultos, por sua vez, parecem lamentar.
O garoto, por outro lado, toma à frente.
一 Eu n?o queria ficar preso em um sonho! N?o é a realidade!
Balan?ando o bra?o com certa fúria, n?o se conforma pela exposi??o dos adultos. Tê-los vulneráveis sendo pegos na técnica, poderia ser fatal caso estivessem cercados de monstros.
一 Mas eu nunca os f-forcei a v-verem os sonhos… V-Você despertou, n-n?o foi? Eles também p-podiam…
Ao ouvir isso, a base sobre os seus pés pareceu estremecer. Ele ouve, compreende, mas ainda questiona o fato.
Os olhos do rapaz v?o em dire??o ao mentor. A fei??o dele é de desapontamento. Carmen também n?o está muito diferente.
一 Vocês… preferiram ficar numa ilus?o invés de acordarem?
A voz dele se propaga de maneira mansa.
一 E o que você me falou… de que as coisas n?o seriam como antes… De que agora é encarar essa realidade e seguir em frente!?
O tom sobe à medida que o garoto se indigna. Ele jamais esperaria algo assim do seu av?, o seu mentor e o mestre das suas práticas com arco, ou de Carmen, a sua mestra com a espada.
Os dois apenas ficam em silêncio ao ouvir o serm?o. Contudo, Yurgen suspira e respira com calma.
一 Nós… entendemos a sua frustra??o, Raisel. Mas nós estamos velhos, cansados. N?o há um dia em que n?o nos arrependamos de algo… Ter a chance de reviver memórias, de presenciar algo que nunca aconteceu, mas que gostaríamos que acontecesse… é algo raro. Precioso demais.
O monólogo de Yurgen é acompanhado com uma dor. Os arrependimentos, as suas falhas, est?o cravados em suas costas como lan?as. Por outro lado, Carmen sente as suas cicatrizes arderem. N?o as da pele, mas as das mágoas em seu cora??o.
Ela abra?a os próprios ombros.
Ele cerra os punhos com for?a.
O garoto, por outro lado, se decepciona com a fragilidade de ambos.
一 Eu n?o posso ter vivido muito… N?o vi as coisas que vocês viram… Ou muito menos presenciei o que vocês presenciaram… Mas mesmo assim, n?o desistam assim t?o fácil… Se vocês ficassem daquele jeito pra sempre, o que seria de mim, ou do Lavi, da Lila?
Com suas próprias lágrimas, ele refresca a dor antiga que os acompanha.
Os olhos do arqueiro se abrem com clareza. O azul cintilante aos olhos da espadachim se conformam com mais uma escolha errada.
O abra?o reconfortante em si mesma aos poucos se afrouxa.
Os punhos de Yurgen se abrem gradualmente.
一 Desculpa, Raisel. De verdade.
O mentor caminha até o rapaz com alguma lentid?o. O palmo dele repousa sobre a cabeleira castanha do neto chor?o.
一 Seus idiotas… Pensem mais nos outros…
Rapidamente, ele se recomp?e. As lágrimas s?o enxugadas com o antebra?o.
A ruiva respira fundo e bate algumas palmas.
一 Foco! Foco! Qual… é o seu nome, garota?
A mulher desliza o polegar tirando alguma água do canto dos olhos. A ruiva, portanto, se agacha para ficar na altura da outra recolhida no canto.
一 J-Jeanice… Jeanice Asdoth…
O semblante de Carmen resplandece com um sorriso gentil.
一 As pessoas lá fora gostam muito de você, Jeanice.
Ao ouvir aquilo, a jovem tenta sorrir. Mas o que cobre a sua fei??o é a mais pura das tristezas.
一 E-Elas n?o gostam de m-mim… E-Elas gostam do que e-eu fa?o… N-Ninguém nunca entrou a-aqui dentro.
Com as palavras, Raisel olha para os lados.
O quarto está repleto de pelúcias costuradas a m?o.
Com fantoches e rabiscos de pessoas grudadas nas paredes de papel.
Um cenário indescritível de solid?o.
Do bolso da cal?a, Yurgen retira uma espécie de cilindro enrolado em tecido. Desfazendo as ataduras, é revelado um cristal verde.
一 Encoste no seu ferimento. Vai melhorar.
O homem estende para Carmen, que pega e direciona para Jeanice.
Ela encara o objeto com desconfian?a.
N?o sabia o que é receber uma gentileza, mas ainda assim, faz as pessoas verem os seus sonhos como forma de receber alguma aceita??o.
Com hesita??o, o palmo dela com unhas negras e roídas, se aproxima do cristal.
Ela é magra, repleta de cicatrizes de coceira no antebra?o, ou melhor, parece isso. Pois há faixas que est?o enroladas por eles, mas frouxas.
No fim, ela pega o cristal e direciona até a perfura??o no ombro com cuidado. Ao fazer isso, parte do objeto derrete com o calor do sangue e fecha a ferida de dentro para fora.
Deslumbrada, toda a dor se foi.
Os olhos da feiticeira se levantam até as pessoas desconhecidas.
一 Entendeu que n?o vamos te fazer mal?
O velho complementa com um sorriso vindo da barba grisalha. Por outro lado, Jeanice acena com a cabe?a quase imperceptivelmente.
一 Posso perguntar algumas coisas pra você?
Com o arqueiro tomando à frente, Carmen volta ao lado de Raisel.
一 P-Pode…
一 Asdoth é o nome de uma das famílias nobres que viviam em Kromslaing. Você fugiu de lá e ficou aqui por todos esses anos?
O questionamento faz a garota paralisar.
Ela encara o ch?o relembrando memórias dolorosas. S?o vislumbres de pessoas sendo consumidas, arrastadas em dire??o à escurid?o.
Horrorizada, leva as m?os até a cabe?a e se encolhe novamente.
Trêmula, é possível ouvir a respira??o ruidosa.
一 N-N?o… I-Isso n?o…
Co?ando a barba com alguma preocupa??o, o homem olha para trás encarando especificamente Carmen.
Os dois se olham em silêncio e, após alguns segundos, ela acena com a cabe?a.
Ent?o, o olhar dele novamente desce em dire??o a garota abandonada.
一 Jeanice, quer vir com a gente?
Raisel os encara de soslaio.
N?o podia contestar, mas levar uma pessoa t?o fragilizada para onde as suas memórias mais dolorosas est?o, poderia ser perigoso.
Contudo, deixá-la aqui eventualmente a mataria. Seria usada por toda a vida por essas pessoas em busca dos seus motivos egoístas, fugindo das suas realidades…
Aos poucos, a noite nublada encontra a plenitude da luz do luar.
Ultrapassando as telhas esburacadas, parte do seu brilho prateado encontra o rosto pálido da garota.
Ela encara o velho por alguns instantes com grande fascínio.
Engolindo os seus traumas, ela morde o lábio inferior.
Os palmos deles se unem enquanto as olheiras de Jeanice ganham destaque.
Ambos visualizam a escurid?o um do outro.
Com um puxar, a meio-elfa se levanta. é quase do tamanho de Yurgen, maior do que Raisel e Carmen.
一 P-Para o-onde?

