O primeiro passo queimou como se alguém tivesse apertado um ferro contra a sola do pé de Ribeiro e, ao mesmo tempo, arrancado dele uma lembran?a que n?o sabia que existia. As migalhas de vidro sob os pés n?o era vidro comum; era pele solidificada, um piso que respirava com memórias. Cada queda do peso devolvia um estalo agudo que fazia o ar vibrar em frequências antigas.
Atlantica parecia um sonho distante que alguém tocara com luvas quentes. O horizonte aqui era uma serralheria de luz. Torres que um dia tinham rugido como fornalhas agora curvavam-se como ossos expostos; dunas de vidro cantavam quando o vento, um vento que arranhava, n?o soprava, atravessava as fendas. O sol, se ainda podia ser chamado de sol, batia em círculos rachados e devolvia calor como quem lembra uma história e a repete errado.
No ombro, o Inseto estalou mais que o costume, os cotocos tamborilando no metal do anel. O chiado dele n?o era linguagem pra humanos, mas era mapa para a pele: perigo, leitura, aviso. Ribeiro tentou medir a dor como se fosse um número. N?o dava. O corpo, 80% água e menos preparado do que lembrava, enviava alarmes que n?o respeitavam explica??es. Sem o artefato que o protegia, aquele objeto mítico que pertencera à sua vida anterior, cada passo era um longo corte de língua.
A voz apareceu sem se anunciar. N?o veio de um buraco, n?o veio de uma sombra: era a própria coisa do calor que decidiu falar. Primeiro, um ressoar baixo, como algo que ronca dentro de pedra oca; depois, uma forma que se desenhou devagar no ar quente, fervendo como se estivesse sendo costurada ali mesmo.
às vezes lembrava o menino. Um rosto raso, cabelo fino, olhos que guardavam perguntas em vez de respostas. Noutras vezes a mesma linha do sorriso virava um sulco de rugas e o corpo todo crescia, curvado sob um casaco branco que parecia brotar da carne, um manto que n?o fora jamais tecido, mas exsudado. Havia partes translúcidas na pele dessa criatura; havia placas calcificadas; havia um brilho que lembrava fungos que crescem onde a luz larga do mundo se esconde. O cheiro que vinha dela era de água podre e metal antigo, e ainda assim carregava uma ternura que poderia ser fatal.
— "Estranho"
disse a voz, e o som atravessou os dentes de Ribeiro com a precis?o de um estilete.
— "Você caminha como se tivesse lembran?as de calor. Você deveria rir disso."
Quando a forma era menino, a frase vinha simples, limpa; quando era anci?o, ela se arrastava por vozes antigas, com ecos e outras bocas por trás. A alternancia acontecia sem aviso, aleatória como um pêndulo quebrado. O m3N1^0 estava com ela, n?o separado, mas lan?ado como um rebatimento: um tra?o, uma réplica que a própria voz fabricara para n?o se encontrar sozinha no silêncio.
Ribeiro tentou responder. A palavra morreu na garganta. Ele lembrou-se de outro tempo, de outra pele que suportara mais; lembran?as sem forma lhe deram a ilus?o de que já caminhara por brasa. Mas nem sombra disso lhe servia como prote??o agora. O calor mordia a língua. Suor escorria, frio no alto do peito. A escama que antes vivia junto dele havia sido estilha?ada; seus restos flutuavam ainda em memórias que n?o queriam ficar quietas.
— "Você n?o deveria sentir isso"
repetiu a voz, e quase riu.
— "Cinquenta graus é manh? por aqui. Cinquenta é piada. Você aguentava trezentos. O que fizeram com você, minha m?e?"
A palavra caiu como pedra sem explica??o. Ribeiro n?o sabia que aquela palavra fazia sentido para quem quer que fosse a voz. Para ele, era um som errado. A voz, porém, falava com a familiaridade de quem devolve um nome achado na rua e espera que o dono o reconhe?a.
O Inseto aproximou a cabe?a do pulso dele, tentou medir batimentos que pareciam dar voltas em circuitos enferrujados. O corpo de Ribeiro tremia, n?o só por calor, mas por algo que a voz evocava e que n?o cabia em sua pele. Havia, na fala da criatura, fios de história: um golpe, um deus tombado, um planeta que precisou morrer para esfriar, pyros que viraram cinza. Tudo isso vinha como uma chuva de títulos que n?o explicavam a dor.
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A criatura inclinou-se, e ao fazê-lo o ch?o respondeu: fissuras se abriram em cadeias, como se o vidro tivesse est?mago e fosse vomitar lembran?as. De uma estátua próxima caiu uma lasca que brilhou por dentro; algo, por um segundo, acendeu como um olho.
— "Você acha que sabe de tudo"
disse ela, agora mulher... Jovem? Pele azul, necrosada, assada em pontos, era estranho enquanto palavras saiam em tom seco.
— "Que perdeu um objeto, que algo o deixou vulnerável. N?o. Você é desenho raso de algo mais profundo. Você é a assinatura trocada num contrato antigo."
Ribeiro apertou os dentes. A boca já n?o parecia estar ali para dizer verdades válidas. Havia febre, e com ela vinham imagens sem contexto: uma cidade que fervia, vozes que gritavam em um idioma de brasas, m?os que puxavam um fio dentro de um corpo até tirar dele um objeto que cintilou e caiu em pó.
A voz riu, e o riso soou como fungos se abrindo ao toque, dela, o m3N1^0 manifestava-se e come?ou a mover-se em círculos, n?o andava; compassava. Era uma dan?a curta, um compasso que lembrava marés, um método que a criatura aprendera a usar para se locomover entre as marés de calor e sombra. Ele gesticulou com as m?os magras, e o padr?o do vidro sob os pés de Ribeiro mudou como se um mapa tivesse sido recalculado. E logo o senhor retornou.
— "Eu matei o fogo que prendia este mundo"
a voz falou devagar, quase como se contasse um segredo que queimava.
— "Cinco anos. O semideus caiu, e com ele grande parte dos seus. Os pyros que restaram olham-me como a cicatriz que se negou a sarar. Eu comi o calor e o devolvi em silêncio."
— ;-;?????????
O murmúrio era factual. N?o havia júbilo, só a calma de algo que soube esperar. Ribeiro tentou encaixar aquelas palavras em sua própria história e falhou. Ele n?o sabia quem fora Shade; n?o sabia que uma parte daquela alma vivia agora em carne que respirava como fungo. Para ele, tudo aquilo era fome e voz e pés que ardem.
A oscila??o tornou-se mais violenta. Em um piscar, o rosto do menino escondeu-se e o anci?o ergueu-se todo, uma massa que tomava espa?o demais. Havia mais bocas nos cantos da garganta da criatura, e todas pediam. O m3N1^0 gritou algo n?o verbal, uma série de estalos que o Inseto no ombro traduziu por movimentos frenéticos. A criatura tocou o ar com um dedo que era unha, raiz e pergaminho; onde ele passou, o vidro derreteu e foi-se tornando um mosaico de padr?es que lembravam mapas de veias.
— Meu zenerity...
a voz caiu para um sussurro que arranhou a estrutura do mundo. Quando falou, por um segundo, todas as bocas dentro dela pareciam tentar exitar a mesma palavra.
— Por favor me ajude... ????
Houve um estalo seco, um ruído como a quebra de um eixo antigo. O som atravessou o peito de Ribeiro, que sentiu uma parte de si se soltar e descer como se fosse areia úmida. A vis?o se embolou; o calor tornou-se um líquido espesso que escorria pelos olhos. O Inseto gritou um último chiado, alto e afiado, enquanto as partículas da escama, ou o que restava dela, giravam como insectos de metal à volta da voz.
Ribeiro tentou andar. As pernas cederam como se tivessem esquecido o resto do corpo. Alguma coisa atrás dele, talvez uma sombra de Atlantica, tentou chamar, mas os sons vinham de longe, inchados. A voz ecoou novamente, num tom infantil que implorava, num tom antigo que ordenava; era simultaneamente pedido e comando.
Ele n?o entendeu do por que que a criatura usara, "zenerity", mas sentiu o peso dela como uma toalha molhada lan?ada sobre a face. Tudo esvaneceu em um estalo, e a última coisa que viu foi o brilho interno do casaco branco, um fósforo que prometia tanto calor quanto destrui??o.
O mundo dobrou. O vidro cantou uma nota final, alta e limpa, e Ribeiro caiu para trás, levando com ele o som das palavras que n?o eram suas. O ar fugiu dos pulm?es; o Inseto enrolou-se no ombro e estalou como quem tenta prender a noite inteira dentro de si. A voz permaneceu em pé, imóvel, absorvendo o que havia conseguido: um corpo que conhecia sem se explicar, uma m?e que n?o lembrava, e uma fenda que ainda respirava.
Quando o corpo de Ribeiro tocou o ch?o, o calor n?o parou de queimar, apenas deixou de importar.
Planeta infernal tá de volta, família! ??
Mas... o que será que vai ter aqui? ??
Dica: tem a ver com magia e os que se espelham nela.
Quem acertar onde o próximo capítulo vai se passar vai ganhar uma recompensa informativa sobre a obra, posso até mostrar sistemas que me baseei na narrativa, ou detalhes ainda n?o revelados.
A proposta vale até a saída do próximo capítulo, ent?o fiquem espertos quem quiser saber mais, ein! :3

