home

search

26. O eco e a escama

  O cheiro de chuva antiga ainda vinha do bolso. Ribeiro caminhava com a sensa??o de quem traz no corpo um segredo que n?o sabe ler: pesado, íntimo, difícil de esconder até de si mesmo. Atlantica ainda empurrava as pessoas com suas correntes domésticas: vitrines, fachadas coralinas, velhos vendendo rumores em bocados. Mas algo no ritmo das bolhas estava torto.

  No ombro, pousado como se fosse uma pedra viva, estava o Inseto. “Inseto”, chamou-o assim só por falta de nome melhor. Quando se movia, parecia que a própria sombra da rua se inclinava para escutá-lo. Dele saía um som curto, um chiado fino e tenso, como o ar escapando entre dentes serrados. Ribeiro já reconhecia nesses sons pequenas varia??es, o tom que denunciava surpresa, o arrasto que trazia reprova??o, o intervalo raro que era quase humor.

  A escama no bolso tinha mais que sal, tinha memória. De vez em quando estalava, soltando um aroma de mar e vela que vinha junto com lembran?as de lugares que ele nunca visitara. Pesava como promessa; quando Ribeiro tocou o ponto do peito onde a marca morava, sentiu algo vibrar por baixo dos ossos.

  N?o doeu. Vibrou.

  Como um sino molhado.

  O som veio primeiro dentro das costelas, três batidas, limpas, molhadas.

  “Desperto... Desperto... Desperto...”

  N?o eram palavras para o ouvido humano, mas o corpo entendeu do mesmo jeito. Ribeiro cambaleou, as correntes ao redor parecendo puxar o ar pra um lado e n?o pro outro. O Inseto saltou do ombro, pousou no anel do dedo, fez o chiado de alerta que sempre usava quando algo escapava do comum.

  à frente, a água do canal fez uma coisa que ele nunca vira: a superfície abriu-se como vidro quebrado, uma fenda que alongou o ar. N?o era só um buraco na água, era uma janela, uma costura entre dois modos de existir. Do outro lado, a cena contrariava Atlantica: areia seca, vento que arranhava a garganta, estátuas que choravam pó em vez de lágrimas.

  Ribeiro sentiu o reflexo do menino nas costas como uma presen?a que n?o precisava falar pra marcar território. As palavras daquele pequeno

  — “Espera o espa?o, n?o empurra”

  Voltaram com a mesma calma de sempre. N?o for?ar. Deixar a oportunidade se abrir. A li??o vinha a tempo, sem a arrogancia do curador, com o tom áspero de quem fez ferramentas com coisas quebradas.

  — Vai dizer que isso é normal?

  murmurou, tentando manter o riso frouxo pra n?o entregar o tremor nos punhos.

  O Inseto olhou a fenda. Seus olhos sombreados captaram algo que Ribeiro n?o via; inclinou a cabe?a, os cotocos dianteiros tocando o metal do anel como se medisse a textura. O chiado que fez agora teve um timbre diferente, pequeno, quase curioso, como se descobrisse o gosto de uma nova sombra.

  A voz surgiu ent?o, vinda da fenda, velha como pedra, e estranha como um espelho que reflete o rosto errado. Trazia o cheiro metálico de ferro molhado. N?o tinha gênero, n?o cabia em lembran?a, mas falava com o sotaque de quem caminha entre lugares que n?o pertencem a nenhum calendário.

  Support the creativity of authors by visiting Royal Road for this novel and more.

  Num instante fugaz, algo nela atravessou as duas dimens?es, rompendo a barreira invisível com a delicadeza de quem retorna para casa. Avan?ou em dire??o a Ribeiro como um gato que, depois de muito tempo, reencontra o dono, silenciosa, urgente, inevitável.

  — "Finalmente... depois de quinze anos... eu lhe reencontrei."

  Uma pausa. O som respirou, pesado, antes de se desfazer no ar:

  — "Minha m?e."

  Ribeiro sentiu o ar se tornar denso. A escama no bolso respondeu com um estalo mais alto; por um instante, a superfície do metal do anel refletiu n?o só a cidade, mas uma figura vestida de cinza que ele n?o conseguia ver por completo. A voz continuou, com um riso que se quebrava:

  — “Acha que foi sorte? Azar? Nos abandonar para lutar? Nós, nyxaris, também temos sentimentos...”

  Ribeiro deu um passo atrás, o cora??o trope?ando no próprio compasso.

  — Quem é você?

  perguntou, entre o susto e o deboche.

  — Que diabos tá acontecendo aqui...?

  Ribeiro perguntou, e a palavra saiu menor do que queria.

  A resposta veio como se alguém tivesse sussurrado o próprio nome em água turva.

  — “Alguém que lembra do último acorde. Alguém que deixou o passado de lado... Alguém que n?o perdoa.”

  A escama, no bolso, come?ou a se desmanchar em farelos. Ribeiro fechou a m?o. O pó escorreu entre os dedos como chuva se desfazendo no ar. O cheiro do passado explodiu: churrasco, mercado da pra?a, o caminhar por vidro derretido, coisas que eram suas, e coisas que eram de outro.

  O Inseto tentou capturar os gr?os com os cotocos; n?o por gula, mas por instinto. O chiado que soltou agora tinha ritmo, um solfejo breve, quase melodia. Aproximou a cabe?a do pulso de Ribeiro, como quem mede batimentos.

  — “Minha cabe?a lateja...”

  A lembran?a do ser veio sem aviso, puxada como um fio entre dois tempos. A voz come?ou a se torcer, a forma a se alterar, até que o som encontrou um rosto, o menino.

  — “Mas cuidado com o vento... ele ajuda... e também corta...”

  Uma pausa, quebrada pelo próprio desespero e confus?o.

  — “O que eu t? fazendo aqui...? Minha cabe?a dói...”

  Ribeiro lembrou do aviso, e de novo sentiu o peito apertar. A marca respondia, um tremor em cadeia, como se a pele lembrasse antes da mente. A fenda já n?o era só vista: puxava. Era uma for?a que sabia o nome dele, que chamava pela parte que fingia estar dormindo.

  O [m3N1^0] do respiradouro observava. A carne azul conservada em sal ainda imitava o que fora vida, mas por baixo da pele o eco da voz se mexia, uma lembran?a familiar... ?????? o que restara do pai dela, o auto-espelho que aprendeu a imitar a forma de vida de seu último indivíduo para continuar existindo.

  Ele n?o falava. Só devolvia o som do mundo, dobrado, distorcido, como se toda palavra passasse antes por outra garganta.

  Ribeiro podia atravessar. Bastava deixar o corpo ajustar o ritmo e seguir o som da rua seca; podia também fechar a fenda com o pé e fingir que nada mudara. O m3N1^0 já fizera o que prometera: n?o deu respostas, deu ferramentas, a escama, a li??o, o convite implícito.

  Ele respirou fundo. Atlantica ao redor voltara ao seu compasso quase natural, mas a fissura soprava um vento que n?o pertencia à cidade. O Inseto apoiou os cotocos no punho de Ribeiro e, num gesto raro de companhia explícita, empurrou, n?o muito, só o suficiente pra lembrar que estavam juntos.

  Ribeiro olhou o céu mosaico uma última vez. O riso da voz atravessou a água como um corte fino.

  — "Venha com fome."

  disse aquele tom que n?o era todo maldade.

  — "Venha sem certeza."

  — "Venha com alma..."

  O frio subiu pelo tornozelo e mordeu o f?lego. A escama, no bolso, soltou o último farelo. Quando desapareceu, algo murara em Ribeiro, mas... Sem seu consentimento. E, com isso, o convite ficou claro: atravessar pro seco seria aceitar que algo dentro dele despertara de vez.

  A água respondeu com frio.

  Por um momento, nada aconteceu, e ent?o a fissura inclinou a cabe?a e o puxou, como se a própria cidade chamasse pelo próximo acorde.

  "Em anos de estudo, eu ouvi os humanos e monstros falarem palavras enigmáticas, diferentes de tudo que eu já vi no mundo, estranhas, regularmente ressoar no ar como ordens ou pedidos, e depois de mais de dois milênios de estudo, pude descobrir algumas tradu??es coisas diretas... Parece que a letra "A", pode ser traduzida para algo como... "?" ou "??", e "W" como "?" ou... Vejamos aqui... "?", quando eu descobrir mais, eu voltarei para falar mais sobre está língua estranha e interessante... Parece que ela pode concentrar energia... N?o sei muito ainda, mas... Irei... Hehe..."

  - Z

Recommended Popular Novels