Nem todo fogo deixa luz. Alguns só deixam silêncio.
As ruas da Cidade das Labaredas tremiam sob o peso do calor. Cada fissura cuspia vapor; as forjas martelavam ritmos metálicos que ecoavam no peito de quem se atrevia a caminhar ali.
Shade manteve o capuz baixo. As cinzas no rosto secavam e rachavam como vidro quente. As botas afundaram na poeira incandescente — o ch?o parecia respirar.
à frente, Kairn avan?ava com o manto flamejante ondulando. Seus olhos refletiam as chamas das casas; havia tens?o nos punhos, pequenas fagulhas escapando entre os dedos.
— Kairn… eles... já sabem?
A voz de Shade saiu rouca, abafada pela fuma?a.
— “Se n?o souberem ainda, v?o saber logo,” respondeu ele, sem olhar para trás.
Um grupo de Pyros correu do outro lado da rua, gritando sobre moedas frias e contamina??o. Shade encostou-se a uma parede; o calor pressionava como uma m?o firme.
Os becos à frente engoliam a luz. O ar era quase sólido. A cidade parecia feita para devorar intrusos.
— “Tá quieta demais...”
murmurou Kairn.
— “Normalmente isso significa encrenca.”
— Só estou tentando entender... como vocês vivem assim. Tudo fervendo, tudo gritando. Parece que o mundo vai partir.
— “é o pre?o da chama. Nada queima pra sempre sem dor.”
O silêncio pesou como cinza nos pulm?es. Um estalo seco cortou o ar. Kairn parou; os olhos se estreitaram. Shade girou — nada além da cidade respirando por eles.
— ”Eles acharam a gente... “
murmurou ele, quase sem voz.
O ch?o vibrara. Um calor atravessou o beco. Uma figura se ergueu: corpo de magma rachado, veias incandescentes, olhos brancos e frios.
— A marca... recalibrou.
Shade recuou.
— “Eles sabem...”
O Pyro abriu a boca; um estalo virou grito, virou sirene. As paredes vibraram. Luzes acenderam. Passos pesados ecoaram.
Kairn cerrou os punhos. Fagulhas saltaram.
— “Corre!”
Eles correram. Chamas surgiam dos lados, guardas de fogo escuro, armaduras de cinza viva, rostos sem forma. Cada passo acendia o ch?o. Shade trope?ou num bloco quebrado; o bra?o raspou na parede quente. Por um instante, a dor atravessou-a, estranha, vívida. Ela n?o deveria sentir aquilo, e ainda assim sentiu.
Kairn a segurou, puxando-a para uma passagem lateral.
— “Tá viva?”
— Quase... (?╥?﹏?╥?)
murmurou ela.
— “Ent?o continua.”
O beco abriu-se numa pra?a ampla. No centro, uma forja desativada, po?o de cinzas adormecidas. Eles se ocultaram atrás de uma arcada de pedra derretida. Os passos se aproximavam. Shade olhou o pulso: veios prateados tremiam sob a pele como raízes tentando rasgar o cascalho.
— Kairn...
ela mostrou o bra?o.
— “N?o pode ser...”
ele perdeu o f?lego.
— “A marca... tá tentando usar você.”
Uma rajada estourou o arco. Fragmentos incandescentes voaram. Shade rolou pelo ch?o. No alto, uma silhueta de fogo dourado pairava, corpo de luz viva, olhos como brasas.
— Kairn de Emberwood...
disse a voz.
— “Você trouxe o frio para dentro da chama.”
Kairn ergueu o rosto.
— “Lyara...”
— “Devia ter ficado onde quer que vocês, ratos imundos, deviam estar. Agora o fogo vai te consumir.”
As cinzas giraram como véus. Shade tentou correr, mas o círculo se fechou.
— Kairn!
— “Vai!”
rugiu ele.
O ch?o rachou. Um jato a lan?ou para fora da pra?a. Ela bateu a cabe?a, rolou, tossiu, coberta de fuligem. Atrás dela, uma explos?o sacudiu os prédios; chamas subiram em espiral até desaparecer no céu.
Love this novel? Read it on Royal Road to ensure the author gets credit.
Depois da explos?o, Shade cambaleou. A vis?o turvou; o corpo pesava como se carregasse o próprio incêndio. Cada respira??o queimava, n?o só a pele, mas por dentro. Os sons da cidade afastaram-se, embaralhados numa névoa espessa. O calor deu lugar a um frio estranho, quase reconfortante, que puxava sua consciência para longe da dor.
Desmaiou sobre o ch?o quente.
Quando abriu os olhos de novo, n?o havia fogo. N?o havia espa?o, nada, era ... O vazio;
Logo, o vazio havia cedido a um lugar verde, plantas, árvores, montanhas memoráveis. A casa de sua infancia apareceu como quem lembra de um lugar seguro: madeira que cheirava a pinho, janelas que rangiam de leve, o fino pó de sol que dan?ava no ar. Tudo parecia parado no tempo, como se ninguém houvesse passado por ali desde que a última manh? terminou.
Shade caminhou descal?a pela casa de sua memória. Sentiu a madeira fria sob os pés, ouviu o rangido familiar da escada e o som distante de água fervendo, uma lembran?a da cozinha, esquentando p?o. Cada móvel, cada ranhura da parede, estava exatamente onde devia estar; até um copo lascado na prateleira dava-lhe o conforto absurdo da precis?o.
Em seu quarto, sobre a cama, alguém a esperava. Era ela, o mesmo rosto, as mesmas fei??es, mas havia um descompasso: os olhos da figura eram fundos, calmos, e em volta dela havia uma presen?a que Shade conhecia de maneira íntima e temida. A Sombra estava acordada.
A figura ergueu-se devagar, cruzou as pernas como se aquela cama-lhe pertencesse desde sempre.
Shade respirou e, pela primeira vez desde a pra?a, teve coragem de falar sem que o panico a consumisse.
— Você... é... Quem eu encontrei no limbo?
a voz de Shade saiu pequena.
— “Positivo, porém, mais detalhadamente, sou o que você empurrou para baixo quando prometeu que seguiria adiante.”
A Sombra falou sem pressa. A voz era velha e segura, e ao mesmo tempo mais próxima do que qualquer espelho.
Shade hesitou, os olhos passando sobre cada detalhe do rosto que era o dela.
— Mas nós n?o somos a mesma coisa? Ou... Indivíduos diferentes? Eu tive este dúvida na última vez...
— “No corpo, sim. Aqui posso dizer o que você n?o permite ouvir. Aqui eu existo com nomes próprios.”
A Sombra aproximou-se um passo.
— “E preciso que você me escute.”
Um nó de lembran?as atravessou Shade: uma m?o que a empurrou, uma porta batendo, o frio da manh? em que aprendeu a se fechar. Cada memória vinha como um sopro úmido que deixava sal no canto dos olhos.
— Ent?o... você é... eu?
Shade murmurou.
— “Sou você com a coragem que foi deixada nos cantos. Sou as certezas que você fingiu n?o possuir. Sou o que resta quando você cansa de fugir.”
A Sombra sorriu, um sorriso sem malícia, só nomea??o.
Shade sentiu algo dentro dela que n?o era medo: era reconhecimento. As partes rompidas batiam como pe?as encaixando. N?o havia faíscas no ar, nem marcas pulsando em cores; havia uma calma lenta que ocupava o lugar onde o panico costumava morar.
— Eu n?o quero te perder
disse Shade, sem querer admitir que já havia tentado.
— “N?o vai perder. Aprenda a me usar. Todos nós, somos uma...”
A Sombra tocou o próprio peito, e Shade sentiu (mesmo em pensamento) a press?o daquele toque vibrar no pulso queimado: uma dor breve, real, como ponte entre a memória e a cidade.
A conex?o voltou a lembrar-lhe que seu corpo jazia ali, na poeira e no calor. Pelo resto do corpo vinha o eco da fuligem; no pulso, o ardor daquela marca. A lembran?a física deu-lhe ancora.
E ent?o, sem cores, sem efeitos, sem heráldica mística, apenas com a verdade nua dentro da cabe?a, Shade percebeu a trindade de seu ser: n?o duas metades em guerra, mas três vozes que respiravam o mesmo ar. A Voz, cuidadosa, racional, permanecia com ela, firme e medida. A Sombra, firme, paciente, oferecia a for?a que fora negada por seu passado. E a Shade que olhava tudo isso era a quem cabia escolher.
Respirou fundo. Sentiu o ar rasgar-lhe os pulm?es por um instante, um sinal de vida que vinha de volta.
— Estou pronta para n?o fugir mais.
murmurou ela, primeiro para si, depois para a Sombra.
— Para usar vocês. Para lembrar quem eu sou.
A Sombra inclinou a cabe?a, satisfeita.
— “Ent?o venha, Shade. Vamos acordar.”
No mesmo momento, um ruído distante estourou como pele de tambor: um grito, o ranger de pedra. A lembran?a esvaiu; o verde da casa tremeu. A consciência deslizou de volta, levando consigo a certeza recém-descoberta.
No corpo, o calor retornou em camadas: a dor no bra?o, a fuligem na boca, o som abafado das forjas. Shade arfou, os olhos ainda pesados, mas mais inteira. A trindade n?o havia se desfeito, agora, ao menos, existia com nome.
Ela abriu os olhos para a Cidade das Labaredas. O silêncio que o fogo deixara n?o mais parecia absoluto; havia algo dentro dela que respondia. E, apesar de tudo ainda em chamas lá fora, Shade levantou-se, e foi atrás de seu companheiro.
Shade caiu de joelhos.
O ch?o ainda pulsava sob a sola das botas, como se o cora??o da cidade batesse ali, lento, pesado, quase humano.
A armadura de Kairn estava aberta, tombada de lado, as bordas ainda fumegantes. Dentro, uma massa líquida, viscosa, misto de cinza e metal. Um resto do que já foi chama.
Ela engoliu seco.
O cheiro era doce demais para ser morte, mas azedo o bastante para ser fim.
— Kairn...?
O som saiu rachado, como se cada sílaba se quebrasse antes de alcan?ar o ar.
Nenhuma resposta.
Só o estalar distante de algo queimando.
Ajoelhou-se ao lado. Tocou o metal frio, frio, n?o quente. E aquilo foi o que mais a assustou.
O fogo o deixara.
O corpo dele n?o evaporou nem virou pó, apenas se desfez, como se tivesse tentado existir além do possível.
No reflexo trêmulo da armadura, ela viu algo mover-se.
N?o era o rosto dele. Era uma fagulha, pequena, teimosa, flutuando na massa amorfa.
E por um instante, o calor voltou, breve, mas vivo.
Shade aproximou a m?o.
A fagulha reagiu, recuando, depois avan?ando, tocando-lhe a pele.
Uma lembran?a atravessou sua mente: a voz dele, antes de correr, antes do clar?o.
— “Nada queima pra sempre sem dor.”
Ela fechou os olhos. A chama entrou no pulso, pelo mesmo lugar onde a marca pulsava. O calor se espalhou.
E pela primeira vez, a dor n?o era puni??o, era heran?a.
As cinzas em volta come?aram a girar, lentas, puxadas por algo invisível. A marca prateada no bra?o brilhou por dentro, tingida de dourado.
Shade sentiu o eco da presen?a de Kairn, n?o como corpo, mas como ritmo. Um batimento novo, diferente, fundido ao dela.
Ela n?o sabia se ele estava vivo.
Mas sabia que o fogo n?o o deixara de todo.
— Ent?o é assim que você fica, hein...
murmurou, com um sorriso falho, cansado.
O vento quente passou, levando parte das cinzas. A cidade respirava de novo, mas de outro jeito, como se o fogo tivesse mudado de lugar.
Shade ergueu o olhar para o horizonte avermelhado.
A chama de Kairn ardia agora dentro dela.
E ao longe, entre as labaredas e o som metálico das forjas voltando à vida, uma nova voz sussurrou em sua mente, n?o dela, n?o da Sombra, nem da voz, mas de uma terceira chama, familiar e calma:
— “A gente ainda tem caminho pela frente, vamos aos polos? Temos coisas para resolver la.”

