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12. Cinzas que suspiram

  No limiar da saída das Minas de Sigillis, uma figura flamejante se recorta contra a luz avermelhada da mina: a tia de Kairn. Sua forma ondula em labaredas e cinzas, partículas incandescentes dan?ando ao redor dela. Pequenas fagulhas se desprendem a cada gesto, e o calor que emana é quase palpável. Ao lado, uma parte quebrada no ch?o, cheio de pó de aroma intenso.

  — Vai com cuidado, seu teimoso! :3

  diz ela, a voz crepitando como carv?o queimando, de forma ir?nica.

  — "E cuida da sua namoradinha também. Se aprontarem, n?o venham chorar depois!"

  Kairn toca levemente a ponta da m?o flamejante da tia, faíscas se espalhando entre eles.

  — "N?o se preocupa, tia. A gente volta, e ela n?o é minha namorada -_-"

  Ela solta uma risada curta, estalos de cinza e fogo preenchendo o ar, e aponta para vários vasos de cores vibrantes e diferentes.”

  — “Eu fico aqui na minha mina. Se alguém meter a m?o nela, eu derreto o infeliz! Ah sim, voltem antes do próximo eclipse, hein?"

  Shade observa fascinada, tentando n?o pisar em nenhuma fagulha solta. Com um último aceno flamejante, a tia se retira, deixando apenas calor e partículas de cinza flutuando no ar.

  Caminhando pelas minas de Sigillis, finalmente encontram a saída. O calor da mina ficou para trás, mas o cheiro de cinza ainda os acompanhava, onde o ar que vem de fora os recebe como uma bofetada quente, pesado, quase viscoso. Shade sente a pele arrepiar; o céu laranja rachado parece em chamas, e o ch?o mistura terra vermelha e rachaduras que se estendem até onde a vista alcan?a.

  Por um instante, Shade solta um riso curto. Ao longe, uma cidade surge: torres que vomitam luz, chaminés cuspindo faíscas, ruas banhadas por reflexos de fogo. O som metálico domina o ambiente, martelos, portas rangendo, passos apressados. Mas olhando melhor, cada rosto na rua, guardas, comerciantes, transeuntes, é feito de fogo, cinza e magma. Olhos incandescentes, bra?os que soltam faíscas, corpos instáveis como brasas vivas. A cidade inteira pulsa com calor e movimento.

  — Uuuu… bora lá

  The narrative has been taken without permission. Report any sightings.

  murmura Shade, cautelosa e atraída ao mesmo tempo.

  Ela se aproxima de uma pedra negra e observa seu reflexo distorcido.

  — Mas… e se me perceberem?

  Diz baixinho.

  Kairn, "ergue" uma sobrancelha. Um meio sorriso atravessa seus lábios incandescentes:

  — "Talvez uma maquiagem aqui e ali ajude."

  Shade revira os olhos, pega um punhado de cinza quente do ch?o e passa no rosto. O cheiro a faz tossir, mas os tra?os escuros ajudam a se misturar entre tantos seres.

  — Tá melhor?

  pergunta, tentando parecer convencida.

  — "Pior!"

  responde Kairn, rindo baixinho.

  — "Mas talvez funcione."

  Eles seguem pela trilha até a cidade. O calor e o ruído aumentam: vozes que crepitam, rodas, o tilintar de forjas. A fuma?a e o brilho metálico dificultam distinguir rostos, mas Shade se mistura gra?as à cinza.

  Ela olha de relance para o corpo, esperando qualquer sinal conhecido, a marca. Nada. Nem dor, nem pux?o. O silêncio a deixa inquieta.

  — Estranho… Era pra eles já terem achado a gente ...

  murmura Shade.

  Kairn ajusta o manto de chamas nos ombros:

  — A marca demora. Depois de um tempo sem contato, leva um bocado pra recalibrar.

  — Um bocado quanto?

  ela pergunta.

  — O bastante pra gente se meter em mais problema

  ele responde com um meio sorriso cansado.

  Entram pela porta principal da Cidade das Labaredas. As edifica??es rasgam o ar; os Pyros se movem com pressa, alguns com bra?os instáveis, outros com corpo quase totalmente cinza. Shade e Kairn desviam de bancas e fornos. A cinza no rosto de Shade ainda ajuda a se misturar entre os demais.

  Shade tenta pagar um peda?o de algo que se parecia com p?o queimado e um frasquinho de líquido gelatinoso quente. Puxa do manto moedas do planeta dela; brilham de forma estranha.

  O vendedor pega a moeda, hesita, e em seguida grita, faíscas saindo de sua boca:

  — Moeda estranha! Guardas!

  Kairn empurra o vendedor, e a situa??o escala rapidamente. Gritos e passos de outros Pyros acompanham a confus?o. Sem esperar, Kairn segura Shade pelo bra?o e ambos correm por uma viela estreita entre as forjas. As botas batem no ch?o vermelho, faíscas voam ao redor.

  Curvas, escadas improvisadas, barris, até que finalmente entram em um beco mais largo, deixando a pancadaria para trás. A cidade volta a ser apenas fundo: martelos, chamas, conversas abafadas.

  Shade respira fundo, m?os tremendo. Kairn observa e dá um meio sorriso que n?o chega aos olhos.

  — Por hoje, a marca ainda n?o nos pegou...

  ele diz baixo

  — Mas n?o irá demorar...

  Do lado de fora do beco, a cidade pulsa indiferente, e o perigo move-se como uma sombra que respira. Eles trocaram cinzas por ruas em chamas, e a noite promete, por ora, esconder o próximo trov?o.

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