# Capítulo 21: Máscaras Despeda?adas
A luz dourada da manh? filtrava-se pelas cortinas finas, banhando o quarto em um brilho quase etéreo que contrastava com a escurid?o que logo se abateria sobre o dia. Zack estava sentado à mesa de café, observando Mira devorar seu terceiro p?o com geleia. Havia algo hipnótico na forma como ela comia – despreocupada, quase infantil em seu prazer, mas com olhares ocasionais que eram tudo menos inocentes.
"Você está me encarando," disse ela sem levantar os olhos, um sorriso brincando nos cantos de seus lábios.
"Estou tentando entender como alguém t?o pequeno come tanto," respondeu Zack, tomando um gole de seu café amargo.
Mira riu, um som cristalino que parecia fora de lugar vindo de alguém que carregava duas armas letais à cintura e um baralho roxo decorado com símbolos de olhos e palha?os no bolso de sua jaqueta.
"Ganho muito dinheiro nos jogos de 'cruz'," comentou ela casualmente, lambendo geleia do polegar com deliberada lentid?o. "é um bom negócio, sabe? Ca?adores bêbados s?o t?o fáceis de enganar. Fariam qualquer coisa para passar uma noite comigo."
Seus olhos encontraram os de Zack, uma provoca??o silenciosa pairando entre eles. Havia uma delicadeza em sua voz que contrastava com a dureza de Lyra, uma suavidade que mascarava a letalidade que Zack sabia existir sob a superfície.
"Quer ver um truque?" perguntou ela, sacando seu baralho com um movimento fluido.
Antes que Zack pudesse responder, as cartas dan?avam entre os dedos de Mira como criaturas vivas, girando, embaralhando-se e desaparecendo apenas para reaparecerem em lugares impossíveis. Uma carta surgiu atrás da orelha de Zack, outra dentro de sua xícara de café.
"Onde está o ás de espadas?" perguntou ela, seus olhos brilhando com divers?o maliciosa.
Zack ergueu uma sobrancelha. "N?o fa?o ideia."
O sorriso de Mira se alargou. "Talvez devêssemos procurar... aqui?" Sua m?o deslizou para o colo de Zack, dedos ágeis encontrando seu caminho sob o tecido de sua cal?a.
"Mira..." come?ou Zack, sua voz mais rouca do que pretendia.
"Achei," sussurrou ela, mas n?o retirou a m?o. Em vez disso, seus dedos se fecharam ao redor de algo muito diferente de uma carta de baralho.
Zack inclinou-se para frente, capturando os lábios dela em um beijo faminto. Da porta, veio um som suave – Lyra observava a cena, seus olhos heterocromáticos brilhando com uma mistura de divers?o e desejo.
Zack afastou-se relutantemente. "Preciso da Black Moon," disse ele, sua voz subitamente séria.
O clima no quarto mudou instantaneamente. Mira retirou a m?o, seu rosto perdendo toda a brincadeira anterior. Lyra entrou completamente no quarto, fechando a porta atrás de si.
"N?o," disse Lyra simplesmente.
"Tenho um trabalho a fazer," insistiu Zack. "Preciso da minha espada."
Mira e Lyra trocaram olhares, uma comunica??o silenciosa passando entre elas. Foi Mira quem falou primeiro:
"Nós a selamos e escondemos. E n?o vamos devolvê-la."
Zack levantou-se abruptamente, sua cadeira caindo para trás com um estrondo. A temperatura no quarto pareceu cair vários graus. Mira e Lyra se tensionaram, preparando-se para o pior – ambas conheciam bem a fúria do Ca?ador dos Olhos Negros.
"Você n?o entende," disse Zack, sua voz perigosamente baixa. "Eu *preciso* dela."
"Nós ouvimos," disse Lyra, dando um passo à frente. "Todas as noites que você passa com ela. Os gritos. Os xingamentos. O choro." Sua voz tremeu ligeiramente. "Nunca vimos você t?o bem e feliz quanto ontem à noite, Zack. Sem ela."
Zack abriu a boca para argumentar, mas ent?o parou. Seu rosto, normalmente uma máscara impenetrável, mostrou um lampejo de algo raramente visto – dúvida. Ele respirou fundo, fechando os olhos por um momento.
Quando os reabriu, algo havia mudado. A tens?o em seus ombros diminuiu quase imperceptivelmente.
"Talvez... talvez vocês tenham raz?o," admitiu ele, as palavras parecendo estranhas em sua boca.
Mira e Lyra trocaram olhares surpresos. Esta n?o era a rea??o que esperavam.
"Eu me senti... diferente ontem à noite," continuou Zack, sua voz quase um sussurro. "Vivo. Como n?o me sentia há... muito tempo."
Ele estendeu os bra?os, um gesto t?o inesperado que ambas as mulheres ficaram momentaneamente paralisadas.
"Venham cá," disse ele.
Hesitantes, Mira e Lyra se aproximaram, permitindo que Zack as envolvesse em um abra?o. Era um momento de vulnerabilidade t?o raro que nenhuma delas ousou quebrá-lo com palavras.
"Vocês podem vir comigo," disse Zack finalmente. "Mas n?o fa?am nada até que eu pe?a. Entendido?"
Ambas assentiram contra seu peito.
"Queremos conhecer Orpheus," disse Mira, afastando-se para olhar Zack nos olhos. "O garoto que conseguiu o que ninguém mais conseguiu."
"O que seria?" perguntou Zack.
Lyra sorriu, tocando o rosto dele suavemente. "Te fazer humano novamente."
---
O Bar Caneca Furada estava quase vazio àquela hora da manh?, com apenas alguns clientes sonolentos espalhados pelas mesas. Para surpresa de Zack, K e Tobi estavam sentados no balc?o, tomando suco e rindo como velhos amigos.
"Olha só," murmurou Mira, cutucando Zack nas costelas. "Parece que temos dois pombinhos."
Tobi estava no meio de uma história, gesticulando amplamente enquanto K ria, seu rosto mais relaxado do que Zack jamais havia visto.
"Bom dia," disse Zack, aproximando-se do par.
K endireitou-se imediatamente, como se tivesse sido pega fazendo algo proibido. Tobi apenas sorriu, seus olhos avaliando Mira e Lyra com interesse profissional.
"Noite agitada?" perguntou ele, seu sorriso se alargando ao notar uma marca no pesco?o de Zack.
Zack ignorou a provoca??o, alcan?ando o bolso interno de seu casaco. Retirou um pequeno pergaminho selado com cera vermelha e o entregou a Tobi.
"Pergaminho de Rá," explicou ele. "Para nos mantermos em contato."
Tobi aceitou o pergaminho com um aceno solene, compreendendo o significado do gesto. N?o era apenas uma ferramenta de comunica??o – era uma oferta de confian?a contínua.
"Vamos," disse Zack a Mira e Lyra. "Temos que encontrar Orpheus."
Enquanto saíam do bar para a luz brilhante da manh?, Zack sentiu os olhares que os seguiam. N?o era incomum – seus olhos negros sempre atraíam aten??o – mas aqui, na Cidade Vermelha, era diferente. N?o era medo o que via nos rostos das pessoas, mas algo mais próximo da reverência.
"Você deveria usar um capuz," sugeriu Mira, notando seu desconforto. "Evitaria toda essa aten??o."
Zack balan?ou a cabe?a. "Este é o único lugar onde n?o preciso me esconder," respondeu ele.
Lyra estudou seu perfil, notando algo diferente em sua express?o. "Você mudou," disse ela suavemente. "Desde que Orpheus apareceu."
"Para melhor, espero," respondeu Zack, um raro sorriso curvando seus lábios.
"Definitivamente para melhor," confirmou Mira, entrela?ando seu bra?o com o dele. "Mal posso esperar para conhecer esse garoto milagroso."
---
O hotel onde Orpheus estava hospedado com Matheus, Loren e os idosos era um dos mais antigos da cidade, uma estrutura imponente de pedra vermelha com janelas altas e varandas ornamentadas. Zack sentiu uma pontada de inquieta??o ao se aproximar – algo estava errado, embora n?o conseguisse identificar exatamente o quê.
Orpheus estava na recep??o quando eles entraram, seu rosto jovem iluminando-se ao ver Zack. Ent?o seus olhos pousaram em Mira e Lyra, e sua express?o mudou para algo entre admira??o e choque.
"Mestre!" exclamou ele, aproximando-se rapidamente. Seus olhos n?o deixavam as duas mulheres. "Você... trouxe companhia."
"Orpheus," disse Zack formalmente, "estas s?o Mira e Lyra."
"Seu mestre sabe escolher bem, hein?" brincou Orpheus, um sorriso maroto em seu rosto.
Mira e Lyra trocaram olhares, suas express?es endurecendo. Orpheus percebeu imediatamente seu erro.
"Desculpe," disse ele rapidamente, corando. "Eu n?o quis—"
Para sua surpresa, ambas as mulheres come?aram a rir.
"Ele é adorável," disse Mira, aproximando-se para depositar um beijo na bochecha de Orpheus. "Cuidou bem do nosso Zack. Tenho uma dívida eterna com você por isso."
O rosto de Orpheus ficou ainda mais vermelho. Lyra se aproximou, removendo algo de seu pesco?o – um colar de prata com um símbolo de raio.
"Este foi o primeiro presente que recebi de Zack, cinco anos atrás," disse ela, colocando-o ao redor do pesco?o de Orpheus. "Acho que agora deve ser seu."
"Lembro de Zack usando isso," comentou Mira, sorrindo ao ver como o colar caía perfeitamente sobre o peito de Orpheus.
O momento de leveza foi interrompido quando Zack deu um passo à frente, seu rosto subitamente sério.
"Precisamos conversar sobre o bebê," disse ele.
O efeito foi imediato e dramático. Loren e Matheus, que haviam acabado de entrar na recep??o, congelaram como se tivessem sido atingidos por um raio. Os idosos, sentados em poltronas próximas, trocaram olhares alarmados.
"Bebê?" repetiu Orpheus, confuso. "Que bebê?"
Os idosos se levantaram, suas express?es uma mistura de medo e indigna??o. "N?o sabemos do que está falando," disse a idosa, sua voz trêmula.
"N?o adianta mentir," disse Matheus, dando um passo à frente. "Ele deve saber de tudo." Virando-se para Zack, acrescentou: "Podemos conversar em particular?"
"N?o," respondeu Zack firmemente. "Orpheus, Mira e Lyra ficam. Vocês n?o têm escolha."
Um silêncio pesado caiu sobre o grupo. Orpheus olhou de Zack para a família, sua confus?o evidente.
"A farsa acabou," disse Zack, sua voz cortando o silêncio como uma lamina. "Vocês têm mais dinheiro do que aparentam. Essa história de camponeses pobres e sem-teto n?o me engana mais."
Os idosos come?aram a implorar, lágrimas escorrendo por seus rostos enrugados. "Por favor," suplicou o idoso. "Tenha piedade."
Mas Zack n?o demonstrou emo??o. Seu rosto se transformou em uma máscara fria e assassina, seus olhos negros parecendo absorver toda a luz ao redor. Um cheiro metálico, como de sangue fresco, parecia emanar dele, preenchendo o ar com uma presen?a quase palpável de morte.
Orpheus deu um passo involuntário para trás, sentindo pela primeira vez um medo genuíno de seu mestre. Mira e Lyra reagiram instantaneamente, puxando Orpheus para perto delas em um gesto protetor.
Loren e Matheus recuaram, terror evidente em seus rostos. Os idosos tremiam visivelmente, suas súplicas tornando-se mais desesperadas.
Orpheus tentou falar, mas Mira cobriu sua boca com a m?o, balan?ando a cabe?a em um aviso silencioso. Lyra apertou o bra?o de Orpheus, seus olhos transmitindo uma mensagem clara: _n?o intervenha_.
Zack deu um passo à frente, seu corpo tenso como um predador prestes a atacar. O ar ao redor dele parecia distorcer-se com a intensidade de sua presen?a.
E ent?o, tudo mudou.
A idosa moveu-se com uma velocidade impossível. Em um instante, estava tremendo de medo; no seguinte, seu pé conectava-se com o abd?men de Zack com for?a suficiente para lan?á-lo através da parede do hotel.
O impacto foi ensurdecedor. Zack atravessou n?o apenas a parede da recep??o, mas várias paredes além, antes de ser arremessado para fora do prédio, caindo dez andares abaixo.
Orpheus observou em horror absoluto enquanto o idoso – um homem que parecia frágil demais para subir escadas sem ajuda – saltava pela janela estilha?ada, perseguindo Zack em sua queda.
A idosa come?ou a rir, um som que arrepiou a espinha de todos os presentes. Seu sorriso se alargou, literalmente se estendendo até suas orelhas em uma distor??o grotesca de sua face. Ent?o, ela também saltou pela janela, seguindo seu companheiro.
"O que está acontecendo?" sussurrou Orpheus, seu corpo tremendo.
Sua pergunta foi respondida por um som que gelou seu sangue – Loren e Matheus estavam rindo. N?o era uma risada normal, mas algo frenético, quase maníaco, como se estivessem possuídos.
"Olhe para ele," zombou Matheus, apontando para Orpheus. "O pequeno herói, t?o ansioso para ajudar os pobres idosos indefesos."
"T?o nobre," acrescentou Loren, sua voz carregada de escárnio. "T?o patético."
"Quem s?o vocês?" perguntou Orpheus, sua m?o instintivamente movendo-se para a Katana Coyote em sua cintura.
"Somos exatamente quem sempre fomos," respondeu Matheus, seu sorriso agora t?o amplo quanto o da idosa havia sido. "Apenas cansamos de fingir bondade para uma crian?a idiota."
O ar ao redor de Loren come?ou a ondular, como se o próprio espa?o estivesse se dobrando. Em um piscar de olhos, ela desapareceu de onde estava e reapareceu ao lado de Lyra.
"Nível S," murmurou Lyra, reconhecendo imediatamente a classifica??o da habilidade. "Ela pode trocar de lugar com objetos e pessoas."
Matheus estendeu a m?o, e uma espada de energia vermelha materializou-se em seus dedos, seu brilho pulsante iluminando seu rosto com um brilho demoníaco.
"Também nível S," alertou Mira, empurrando Orpheus para trás dela. "Ele pode criar qualquer objeto com sua energia."
"Onde está Zack?" perguntou Lyra, seus olhos procurando freneticamente pela janela quebrada.
Mira n?o respondeu. Em vez disso, um sorriso perturbador se espalhou por seu rosto, seus olhos brilhando com uma luz quase febril. "Finalmente," sussurrou ela, "uma luta de verdade."
Orpheus sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Havia algo profundamente errado na forma como Mira sorria – era o sorriso de alguém que ansiava por violência, que se deleitava com a perspectiva de derramamento de sangue.
Antes que pudesse processar isso completamente, o hotel inteiro tremeu com uma explos?o distante. Peda?os do teto come?aram a cair, e rachaduras se espalharam pelas paredes.
"Temos que sair daqui," gritou Lyra, puxando Orpheus em dire??o à saída.
Loren moveu-se novamente, desaparecendo e reaparecendo diretamente no caminho deles. Em sua m?o havia uma adaga curva que n?o estava lá um segundo antes.
"Ninguém vai a lugar algum," disse ela, sua voz estranhamente distorcida.
Mira deu um passo à frente, seu baralho roxo já em suas m?os. As cartas come?aram a flutuar ao seu redor, cada uma brilhando com uma energia violeta.
"Orpheus," disse ela sem tirar os olhos de Loren, "saque sua arma."
Orpheus desembainhou a Katana Coyote, a lamina capturando e refletindo a luz das cartas energizadas de Mira. Ele viu os olhos de Loren se arregalarem ligeiramente ao reconhecer a arma.
The narrative has been taken without authorization; if you see it on Amazon, report the incident.
"Uma Coyote," murmurou ela. "Interessante."
Matheus avan?ou, sua espada de energia cortando o ar com um zumbido amea?ador. "Chega de conversa," rosnou ele.
Lyra saltou, seus pés encontrando o teto e aderindo a ele como se a gravidade tivesse sido invertida. Ela sacou várias adagas, seus olhos heterocromáticos analisando metodicamente cada movimento dos oponentes.
"Esta luta vai afetar pelo menos 500 metros ao redor," alertou ela. "Precisamos levar isso para fora."
Como se respondendo às suas palavras, outra explos?o sacudiu o prédio, desta vez muito mais próxima. Uma se??o inteira da parede externa desabou, revelando a rua dez andares abaixo.
Loren sorriu, um sorriso que n?o alcan?ava seus olhos frios. "Vamos lá para fora, ent?o," disse ela, antes de desaparecer novamente.
Orpheus mal teve tempo de reagir antes de sentir uma dor aguda em suas costas – Loren havia reaparecido atrás dele, sua adaga cortando através de sua camisa e penetrando superficialmente sua pele.
Mira reagiu instantaneamente, lan?ando uma carta energizada que cortou o ar como uma lamina. Loren desapareceu novamente, a carta atingindo apenas o espa?o vazio onde ela estivera.
Matheus gritou, um som primitivo de fúria, e lan?ou três lan?as de energia vermelha em dire??o a Mira. Ela se esquivou com uma gra?a sobrenatural, as lan?as explodindo contra a parede atrás dela, desintegrando completamente a estrutura.
O hotel come?ou a desmoronar ao redor deles. Lyra, ainda no teto, fez um gesto urgente para Orpheus, sinalizando um plano sem palavras. Orpheus entendeu imediatamente – ele seria a isca.
"Dog's Blood," sussurrou ele, ativando sua técnica de nível 1.
Uma aura vermelha envolveu seu corpo, e de repente o mundo ao seu redor pareceu desacelerar. Ou melhor, ele havia acelerado. Movendo-se com velocidade sobre-humana, Orpheus circulou Matheus, sua Katana Coyote deixando rastros de luz no ar.
Matheus tentou acompanhá-lo, girando freneticamente, sua espada de energia cortando apenas o ar vazio. Ele n?o percebeu Lyra se posicionando diretamente acima dele, seis adagas prontas entre seus dedos.
Com precis?o mortal, Lyra lan?ou as adagas. Cinco delas foram desviadas pela espada de Matheus, mas a sexta encontrou seu alvo, perfurando profundamente seu ombro.
O grito de dor de Matheus foi animalesco. Sangue jorrou da ferida, manchando sua camisa de vermelho escuro. Seus olhos se arregalaram com fúria e dor, e ele ergueu sua m?o livre.
O ar ao redor dele pulsou com energia vermelha, e ent?o uma lamina gigantesca materializou-se – n?o uma espada, mas algo mais próximo de uma guilhotina flutuante. Com um movimento de seu bra?o ferido, ele a lan?ou n?o contra seus oponentes, mas contra a estrutura do prédio.
A lamina cortou através de vigas de suporte como se fossem manteiga, e metade do andar come?ou a desabar. Gritos de panico ecoaram de outros quartos – hóspedes inocentes presos no fogo cruzado.
"Temos que sair daqui!" gritou Orpheus, correndo em dire??o à abertura na parede.
Sem hesitar, ele saltou para o vazio, confiando em sua técnica ativa para permitir que ele aterrissasse em seguran?a. Mira o seguiu imediatamente, suas cartas formando uma espiral ao seu redor que de alguma forma retardou sua queda.
Lyra foi a última a saltar, mas antes que pudesse se afastar do prédio, Loren apareceu no ar ao seu lado, trocando de lugar com um peda?o de escombro.
"Surpresa," sussurrou ela, antes de desferir um golpe brutal nas costelas de Lyra.
O som de ossos quebrando foi audível mesmo em meio ao caos da estrutura desmoronando. Lyra gritou de dor, seu corpo contorcendo-se no ar antes de cair descontroladamente em dire??o ao ch?o.
Orpheus assistiu em horror enquanto Lyra atingia o pavimento com um impacto sickening, seu corpo quicando uma vez antes de ficar imóvel, sangue escorrendo de sua boca.
"LYRA!" O grito de Mira continha uma emo??o crua que Orpheus nunca havia ouvido antes – n?o apenas medo ou preocupa??o, mas uma fúria primordial.
As cartas ao redor de Mira come?aram a girar mais rápido, seu brilho roxo intensificando-se até se tornar quase cegante. Seus olhos também brilhavam com a mesma luz sobrenatural, e veias roxas come?aram a se destacar em sua pele, como se sua própria energia estivesse prestes a rasgá-la por dentro.
"Vocês n?o deveriam ter feito isso," disse ela, sua voz estranhamente calma em contraste com a tempestade de energia que a cercava.
Loren aterrissou graciosamente a alguns metros de distancia, um sorriso satisfeito em seu rosto. Matheus juntou-se a ela momentos depois, seu ombro ainda sangrando profusamente, mas sua express?o n?o mostrava dor – apenas uma antecipa??o cruel.
Ao redor deles, civis fugiam em panico. O hotel continuava a desmoronar, enormes peda?os de concreto e metal caindo nas ruas. Poeira e fuma?a preenchiam o ar, criando uma atmosfera apocalíptica.
Orpheus correu até Lyra, ajoelhando-se ao seu lado. Ela ainda respirava, mas cada inspira??o era um esfor?o doloroso, e bolhas de sangue se formavam em seus lábios.
"Costelas quebradas," murmurou ela, sua voz quase inaudível. "Pulm?o perfurado."
"N?o fale," implorou Orpheus, lágrimas queimando em seus olhos. "Vamos tirar você daqui."
"Cuide... de Mira," sussurrou Lyra, seus olhos heterocromáticos fixos em algo além de Orpheus.
Ele se virou e viu o que ela estava vendo – Mira, envolta em uma aura roxa pulsante, suas cartas agora girando t?o rapidamente que formavam um tornado ao seu redor.
"Ela vai se matar," disse Lyra, tossindo sangue. "Usando... todo seu poder... de uma vez."
Orpheus hesitou, dividido entre ficar com Lyra ferida e tentar impedir Mira de se autodestruir. Antes que pudesse decidir, o tornado de cartas explodiu para fora.
Centenas – n?o, milhares – de cartas energizadas dispararam em todas as dire??es como projéteis letais. Cada carta era afiada como uma navalha e carregava energia suficiente para perfurar metal.
Loren tentou usar sua habilidade para escapar, mas havia cartas demais, vindas de todas as dire??es. Dezenas delas a atingiram, cortando sua pele, perfurando seus músculos, algumas atravessando completamente seu corpo.
Sangue espirrou em arcos pelo ar enquanto Loren era transformada em algo semelhante a um alvo de tiro ao alvo humano. Ela caiu de joelhos, seu corpo tremendo com o impacto de cada nova carta que a atingia.
Matheus tentou criar um escudo de energia, mas as cartas simplesmente o contornavam, como se tivessem mente própria. Várias perfuraram suas pernas, fazendo-o cair. Outras atingiram seus bra?os, impedindo-o de criar mais objetos com sua energia.
Orpheus protegeu Lyra com seu próprio corpo, esperando sentir o impacto das cartas em suas costas a qualquer momento. Mas o impacto nunca veio. De alguma forma, as cartas os evitavam, como se Mira mantivesse controle suficiente para n?o ferir seus aliados mesmo em seu estado frenético.
Quando o ataque finalmente cessou, Mira caiu de joelhos, exausta. Sangue escorria de seu nariz e ouvidos, o pre?o de usar tanto poder de uma só vez.
Loren, no entanto, ainda estava viva. Seu corpo estava coberto de ferimentos, sangue escorrendo de dezenas de cortes profundos, mas ela se levantou cambaleante, seu rosto contorcido em uma máscara de ódio puro.
"Isso... é... tudo?" perguntou ela, cuspindo sangue. Seu corpo come?ou a se regenerar diante dos olhos horrorizados de Orpheus, os ferimentos fechando-se lentamente.
Matheus também se levantou, embora com mais dificuldade. Seu corpo n?o se regenerava como o de Loren, mas sua determina??o parecia inabalável apesar dos ferimentos graves.
"Vocês n?o s?o humanos," murmurou Orpheus, a realiza??o o atingindo como um soco.
"Finalmente percebeu," zombou Loren, seu sorriso manchado de vermelho.
Orpheus olhou para Lyra, gravemente ferida, e para Mira, exausta além dos limites. Ele estava sozinho contra dois oponentes de nível S, e n?o havia sinal de Zack.
Uma decis?o se formou em sua mente – ele teria que usar sua técnica de nível 3, a mais poderosa que possuía, mesmo sabendo que só poderia usá-la uma vez.
Levantando-se lentamente, Orpheus empunhou a Katana Coyote com ambas as m?os. Fechou os olhos, concentrando-se como Zack havia lhe ensinado. _Foco. Precis?o. Inten??o._
A lamina da katana come?ou a vibrar em suas m?os, e água vermelha – n?o água comum, mas algo que parecia sangue diluído – come?ou a formar-se ao redor do metal, envolvendo-o em um brilho carmesim.
"O que ele está fazendo?" perguntou Matheus, uma nota de preocupa??o em sua voz pela primeira vez.
Loren n?o respondeu. Em vez disso, ela desapareceu novamente, claramente pretendendo atacar Orpheus antes que ele pudesse completar o que quer que estivesse preparando.
Mas Orpheus estava pronto. No momento exato em que Loren reapareceu atrás dele, ele girou, n?o para atacá-la, mas para criar espa?o. Ent?o, com um movimento fluido que parecia ter sido ensaiado mil vezes, ele executou um único corte horizontal perfeito.
A água vermelha ao redor da lamina expandiu-se explosivamente, formando uma onda de energia de três metros de largura e um metro de altura que avan?ou como uma parede de destrui??o.
Loren conseguiu desaparecer a tempo, mas Matheus n?o teve a mesma sorte. A onda o atingiu diretamente, e por um momento terrível, nada aconteceu. Ent?o, lentamente, como se o próprio tempo estivesse relutante em reconhecer o que havia ocorrido, a parte superior de seu corpo come?ou a deslizar para longe da parte inferior.
Matheus olhou para baixo em choque, vendo seu próprio corpo cortado perfeitamente ao meio na altura da cintura. N?o houve tempo para gritar. Seus olhos se arregalaram em compreens?o final antes que a parte superior de seu corpo caísse para o lado, enquanto suas pernas permaneceram de pé por mais alguns segundos antes de desabarem em uma po?a de sangue e vísceras.
A onda de energia continuou avan?ando, cortando através de edifícios como se fossem feitos de papel. Prédios inteiros desabaram em seu caminho, criando uma linha reta de destrui??o que se estendia por quarteir?es.
Orpheus caiu de joelhos, a Katana Coyote tremendo em suas m?os. Ele nunca havia usado essa técnica antes, nunca havia tirado uma vida. O horror do que acabara de fazer – da destrui??o que havia causado – amea?ava engolfá-lo completamente.
Um grito animalesco o arrancou de seu estupor. Loren havia reaparecido, e a vis?o do corpo partido de Matheus a havia transformado. Seu rosto estava contorcido em uma máscara de fúria e dor que mal parecia humana.
Mas ent?o algo ainda mais perturbador aconteceu. A pele de Loren come?ou a rachar, como porcelana quebrando, e através das rachaduras, uma substancia negra e viscosa come?ou a vazar. Seus olhos, antes de um castanho comum, tornaram-se completamente negros, como po?os de tinta.
"Vocês n?o têm ideia do que acabaram de fazer," disse ela, sua voz n?o mais humana, mas um coro de vozes falando em uníssono. "Ele está vindo. Skull está vindo."
Sua habilidade parecia ter se intensificado com sua transforma??o. Agora ela aparecia e desaparecia t?o rapidamente que parecia estar em vários lugares ao mesmo tempo, criando uma ilus?o de múltiplas Lorens atacando simultaneamente.
Cada golpe que ela desferia criava uma cratera no ch?o, sua for?a multiplicada pela fúria e pelo que quer que estivesse tomando controle de seu corpo.
"Orpheus!" gritou Mira, ainda de joelhos mas com determina??o renovada em seus olhos. "Proteja Lyra! Eu cuido dela!"
Orpheus queria protestar – Mira mal conseguia ficar de pé – mas a express?o em seu rosto o deteve. Havia algo ali que ia além da determina??o ou coragem. Era quase... alegria. Como se, apesar do perigo mortal, ela estivesse finalmente em seu elemento.
Mira sacou uma arma que Orpheus n?o havia notado antes – uma pistola ornamentada com detalhes dourados e o nome "Yellow" gravado na lateral. Ela a segurou com ambas as m?os, e veias roxas come?aram a se espalhar por seus bra?os, conectando-se à arma como se estivesse alimentando-a com sua própria for?a vital.
"Isso vai acabar com todos nós," murmurou ela, um sorriso selvagem em seu rosto enquanto a arma come?ava a brilhar com energia térmica concentrada.
Orpheus n?o hesitou mais. Ele correu até Lyra, pegando-a em seus bra?os o mais gentilmente que p?de, e procurou abrigo atrás dos escombros de um prédio próximo.
Atrás dele, ouviu Mira gritar – n?o um grito de dor ou medo, mas um grito de desafio, de liberta??o. O som foi seguido por um rugido ensurdecedor quando a arma "Yellow" disparou.
A explos?o que se seguiu foi como nada que Orpheus já havia experimentado. Uma onda de calor intenso varreu a área, derretendo metal e vaporizando concreto. A luz era t?o brilhante que, mesmo com os olhos fechados e de costas para a explos?o, Orpheus viu manchas brancas dan?ando em sua vis?o.
Quando finalmente ousou olhar, a poeira estava baixando sobre uma paisagem transformada. Onde Loren estivera, havia apenas uma cratera fumegante. Prédios haviam desabado, incêndios ardiam por toda parte, e o ar estava cheio de gritos distantes e o som de sirenes.
No centro de tudo estava Mira, ainda de pé, mas apenas por pura for?a de vontade. Sangue escorria de seus olhos, nariz e ouvidos. A arma "Yellow" caiu de seus dedos trêmulos, e ela cambaleou para frente antes de cair de joelhos.
"Mira!" Orpheus gritou, colocando Lyra cuidadosamente no ch?o antes de correr em dire??o à mulher ferida.
Ele estava a meio caminho quando ouviu – uma risada. Uma risada infantil, inocente e completamente fora de lugar na paisagem de destrui??o.
Orpheus congelou, seu sangue gelando nas veias. A risada vinha da cratera onde Loren deveria ter sido completamente vaporizada.
Lentamente, algo come?ou a se formar no centro da cratera – uma massa de substancia negra e viscosa que se contorcia e pulsava como se estivesse viva. Gradualmente, a massa come?ou a tomar forma, moldando-se em uma silhueta que se parecia perturbadoramente com Loren.
Acima deles, o céu se distorceu, como se a própria realidade estivesse sendo rasgada. Por um breve momento, Orpheus vislumbrou algo através da fenda – um olho gigantesco, maior que a própria cidade, observando-os com uma inteligência antiga e malévola.
A substancia negra que reconstruía Loren parecia estar conectada diretamente ao olho, como se fosse uma extens?o de sua vontade manifestada no mundo físico.
Orpheus olhou para Lyra, inconsciente e gravemente ferida, para Mira, à beira da morte pelo uso excessivo de sua energia vital, e para a criatura que havia sido Loren, agora se reconstruindo diante de seus olhos.
E n?o havia sinal de Zack em lugar algum.
A verdadeira batalha, percebeu Orpheus com um desespero crescente, mal havia come?ado.

