# Capítulo 17: A Voz da Criatura
Zack n?o apareceu.
O grupo avan?ava pela floresta alienígena do Continente Vermelho, com Orpheus na lideran?a. O garoto de quinze anos caminhava com uma confian?a que contrastava com sua juventude, olhos atentos vasculhando constantemente o ambiente ao redor, uma m?o sempre próxima à empunhadura da Coyote.
Atrás dele seguiam K, a mulher de olhos vermelhos como rubis; o casal jovem, Loren e Matheus; e os idosos, cujos nomes ninguém havia perguntado. Todos lan?avam olhares nervosos para as sombras entre as árvores gigantescas, onde formas indistintas pareciam se mover quando observadas pelo canto dos olhos.
"Onde está seu mestre?" perguntou Matheus finalmente, quebrando o silêncio tenso que os envolvia. "Ele simplesmente nos abandonou?"
Orpheus n?o respondeu imediatamente. Continuou caminhando, seus olhos fixos no caminho à frente.
"Ele tem seus motivos," disse finalmente, sua voz calma e controlada. "é tudo que precisam saber."
Loren tentou novamente. "Mas como podemos confiar em vocês se n?o sabemos nada sobre vocês? Quem s?o? De onde vêm?"
Orpheus parou por um momento, virando-se para encarar o grupo. Seu rosto jovem estava sério, com uma maturidade que parecia deslocada em alguém t?o jovem.
"N?o precisam confiar em nós," respondeu ele simplesmente. "Precisam apenas pagar quando chegarmos à cidade. O resto n?o importa."
K observava a intera??o com interesse, seus olhos vermelhos estudando Orpheus com uma intensidade perturbadora. Havia algo neste garoto que n?o se encaixava – uma confian?a, uma habilidade, uma presen?a que n?o combinava com sua idade.
"Há quanto tempo você é mercenário?" perguntou Orpheus a K, surpreendendo-a com a pergunta direta enquanto retomavam a caminhada.
K hesitou, n?o acostumada a compartilhar informa??es pessoais. Mas algo na sinceridade do olhar do garoto a fez responder.
"Desde os dez anos," disse ela, sua voz neutra, como se estivesse comentando sobre o clima.
Orpheus n?o conseguiu esconder sua surpresa. Seus olhos se arregalaram levemente, e por um momento, K viu nele apenas o que ele realmente era – uma crian?a. Uma crian?a confrontada com a crueldade do mundo.
"T?o jovem," murmurou ele, mais para si mesmo do que para ela.
K deu de ombros. "Este mundo n?o é gentil com ninguém. Você aprende a sobreviver ou morre."
Orpheus ficou em silêncio, processando esta informa??o. K percebeu que ele estava reavaliando sua própria vida, talvez percebendo pela primeira vez a anormalidade de sua situa??o – treinado como guerreiro desde a infancia, agora liderando uma miss?o perigosa no lugar mais mortal do mundo conhecido.
A idosa, que caminhava logo atrás deles, aproximou-se de Orpheus com passos lentos mas firmes.
"Sinto muito, jovem," disse ela, sua voz gentil e carregada de culpa. "N?o deveríamos colocar tanta responsabilidade sobre seus ombros. Você é apenas um menino."
Orpheus olhou para ela, e para surpresa de todos, seu rosto se iluminou com um sorriso genuíno – n?o o sorriso confiante que usava para tranquilizar o grupo, mas um sorriso verdadeiramente feliz.
"N?o se preocupe," respondeu ele. "Fa?o isso com amor porque quero ser igual ao meu mestre um dia."
K e o casal jovem trocaram olhares. Havia algo profundamente perturbador e ao mesmo tempo comovente na devo??o absoluta que este garoto demonstrava por um homem que os havia abandonado na primeira oportunidade.
"De onde ele veio?" perguntou Loren, sua curiosidade vencendo sua cautela. "Seu mestre, quero dizer. Como ele sobreviveu tendo olhos negros? Todo mundo sabe que eles s?o ca?ados desde o nascimento."
O sorriso desapareceu do rosto de Orpheus, substituído por uma express?o fechada. Ele n?o respondeu, continuando a caminhar como se n?o tivesse ouvido a pergunta.
K observou a rea??o com interesse. "Você n?o sabia, n?o é?" disse ela, sua voz suave mas penetrante. "Sobre os olhos negros. Sobre a ca?ada. Ele nunca te contou."
Orpheus manteve o silêncio, mas a tens?o em seus ombros confirmou a suspeita de K.
"Que tipo de mestre é esse?" continuou K, sua voz agora carregada de desdém. "Um homem que usa um garoto para ganhar dinheiro, que o abandona no primeiro sinal de perigo, que nem mesmo compartilha verdades básicas sobre si mesmo? Parece-me um mestre bastante inútil."
K esperava raiva, talvez até lágrimas. O que n?o esperava era a rea??o que veio.
Orpheus jogou a cabe?a para trás e riu – uma gargalhada genuína e despreocupada que ecoou pela floresta silenciosa. Quando finalmente se acalmou, olhou para o céu com um sorriso sereno.
"Devo minha vida a ele," disse simplesmente. "E nunca encontrei alguém que conseguisse tocar em meu mestre. Ele é, sem dúvida, a pessoa mais forte do mundo."
O grupo riu com ironia, trocando olhares que claramente comunicavam o que pensavam – delírios infantis, exageros nascidos da admira??o cega de um pupilo por seu mestre.
Mas K n?o riu. Algo na convic??o absoluta de Orpheus a incomodava. Lembrou-se da estranha sensa??o que teve ao primeiro encontro com Zack e Orpheus – aquela sensa??o de que havia algo mais neles, algo que n?o conseguia identificar mas que seu instinto reconhecia como perigoso.
"Fiquem atrás de mim," disse Orpheus de repente, sua postura mudando completamente. "K, você fica na retaguarda."
"Quem você pensa que é para me dar ordens, garoto?" respondeu K, irritada com a súbita mudan?a de comando.
Orpheus n?o respondeu. Em vez disso, ajoelhou-se e colocou a m?o no ch?o, fechando os olhos em concentra??o profunda. O grupo observou em silêncio, confuso com o comportamento estranho.
Após alguns segundos, Orpheus abriu os olhos, seu olhar fixo na escurid?o entre as árvores negras, suas folhas vermelhas e laranja balan?ando suavemente na brisa inexistente.
"Há um rio a 500 metros à frente," disse ele com certeza absoluta. "E presen?as fortes a aproximadamente 1 quil?metro de distancia."
K olhou para ele com espanto mal disfar?ado. Como ele poderia saber disso? Ela era uma mercenária experiente, treinada para detectar perigos, e n?o sentia nada além da inquieta??o normal que o Continente Vermelho provocava em todos.
Relutantemente, K posicionou-se atrás do grupo, reconhecendo que, de alguma forma, este garoto possuía habilidades que ela n?o compreendia. O resto do grupo seguiu em silêncio, agora ainda mais tenso com o aviso de Orpheus.
"Seu mestre," disse Matheus após alguns minutos de caminhada silenciosa, "por que ele n?o carrega nenhuma arma? Um homem que vem ao Continente Vermelho desarmado ou é um louco ou um mentiroso. Talvez ele só saiba curar, mas n?o lutar."
A mudan?a em Orpheus foi instantanea e assustadora. Ele parou abruptamente e virou-se para encarar Matheus, seus olhos brilhando com uma fúria fria que n?o parecia pertencer a uma crian?a. O olhar era t?o intenso, t?o carregado de promessa de violência, que Matheus recuou involuntariamente.
"N?o aceitarei que alguém insulte meu mestre," disse Orpheus, sua voz baixa mas carregada de uma autoridade surpreendente.
K observava a cena com interesse. Matheus havia falado demais, provocado desnecessariamente o garoto. Ela se perguntou se deveria intervir antes que a situa??o escalasse.
N?o foi necessário. A idosa deu um tapa na nuca de Matheus com for?a surpreendente para alguém de sua idade.
"Cale a boca, menino tolo," repreendeu ela seu neto. "Pare de atrapalhar o garoto que está tentando nos salvar."
A tens?o quebrou-se imediatamente. Orpheus riu da cena, seu rosto voltando à express?o jovial de antes. O grupo relaxou visivelmente, grato pela interven??o bem-humorada da idosa.
Mas a tranquilidade durou pouco. Orpheus parou novamente, desta vez sua express?o mudando para algo mais sério, mais preocupante.
"Tem algo vindo," disse ele, sua voz agora um sussurro urgente. "Uma criatura do Vazio. Sua aura é forte, talvez nível A+."
O efeito dessas palavras no grupo foi imediato. Os idosos empalideceram, Loren agarrou o bra?o de Matheus com for?a, e até mesmo K, normalmente impassível, sentiu um arrepio percorrer sua espinha.
"Nível A+?" repetiu ela, sua voz traindo seu medo. "O valor que est?o pagando n?o compensa esse risco. Ninguém me avisou que enfrentaríamos algo desse nível."
"Por favor," implorou Loren, caindo de joelhos junto com Matheus. "Precisamos chegar à cidade. é nossa única chance."
Orpheus olhou para o casal ajoelhado, confuso com a intensidade de seu desespero. Gentilmente, ajudou-os a se levantar.
"Vou resolver isso," disse ele com uma confian?a que parecia absurda dada a situa??o. "O contrato ainda está de pé. Vou levar vocês até lá."
"Você é louco?" exclamou K, sua compostura finalmente quebrando. "Isso é uma piada? Todos vamos morrer! Uma criatura desse nível n?o é apenas forte, é inteligente. E tanta energia concentrada pode despertar... certas coisas."
Havia algo na maneira como ela disse "certas coisas" que fez todos se entreolharem nervosamente, como se ela tivesse mencionado um tabu que ninguém ousava discutir abertamente.
"Vou resolver isso sozinho," insistiu Orpheus. "O contrato ainda está de pé e vou levar vocês até a cidade."
K sentiu-se humilhada. Ser superada em coragem por uma crian?a era insuportável. Mas algo mais a incomodava – a katana na cintura de Orpheus. Agora que prestava mais aten??o, podia sentir a energia emanando da arma. N?o era uma katana comum. Era uma arma especial, o tipo de item que mercenários e colecionadores matariam para possuir.
"Se o garoto morrer," pensou K, calculando friamente, "posso pegar a katana e fugir. Se eu vendê-la, ficarei rica o suficiente para nunca mais precisar aceitar miss?es suicidas como esta."
"Como você conseguiu uma arma assim?" perguntou ela, apontando para a Coyote. "A qual cl? você pertence?"
A resposta de Orpheus caiu como uma bomba no silêncio tenso.
"Eu era um escravo."
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K sentiu como se tivesse levado um soco no est?mago. "Mentira!" gritou ela, avan?ando em dire??o a Orpheus. "Nenhum escravo teria acesso a uma arma como essa! Você está mentindo!"
Orpheus permaneceu imóvel, encarando K com um olhar que n?o deixava dúvidas sobre a veracidade de suas palavras. N?o havia desafio em seus olhos, apenas uma calma aceita??o de sua própria história.
K parou, estudando o rosto do garoto. Lentamente, a verdade se estabeleceu em sua mente – ele n?o estava mentindo. O que levantava uma pergunta ainda mais perturbadora: como um ex-escravo havia conseguido uma das armas mais raras e valiosas do mundo?
O assunto foi temporariamente abandonado quando o grupo chegou a um lago que brilhava sob a luz da lua de sangue. Era um espetáculo de beleza alienígena – a lua era t?o vermelha que partículas de luz carmesim se refletiam na água, tornando-a da cor de sangue fresco. As árvores ao redor brilhavam intensamente, suas folhas vermelhas e laranja criando um dossel luminoso sobre suas cabe?as.
"Muito lindo," murmurou Orpheus, e por um momento, todos ficaram em silêncio, maravilhados com a beleza única deste mundo cruel e sem esperan?a.
Orpheus se aproximou da margem do lago e olhou para seu reflexo na água vermelha. Seu rosto jovem, iluminado pela luz sobrenatural, parecia mais velho, mais sábio, como se carregasse o peso de experiências muito além de seus anos.
"Vocês s?o do Continente Vermelho?" perguntou K, quebrando o silêncio contemplativo.
Orpheus continuou olhando para seu reflexo por alguns segundos antes de responder.
"Viemos de um lugar longe daqui," disse ele finalmente. "Meu mestre veio para me treinar e buscar algo dele na cidade."
"Este lugar é apenas para aqueles com poder de nível A ou superior," explicou K. "Ninguém consegue sobreviver aqui. O Continente Vermelho abriga as criaturas mais poderosas do mundo, com níveis que chegam a S++."
"Criaturas desse nível n?o assustam meu mestre," respondeu Orpheus com simplicidade. "Ele é temido até por aqueles que apenas ouvem seu nome."
K cuspiu no ch?o, seu rosto contorcido em uma express?o de desprezo. "Filho da puta," murmurou ela, rindo com ironia.
O clima ficou instantaneamente tenso. Orpheus e K se encararam, a hostilidade palpável entre eles.
"Calma, jovem," interveio o senhor idoso, colocando uma m?o no ombro de K. "Mesmo aqueles que s?o vistos como loucos ainda têm uma verdade."
K olhou para o idoso com irrita??o, mas algo em suas palavras a fez reconsiderar sua hostilidade. Ela relaxou ligeiramente, embora seus olhos continuassem fixos em Orpheus com desconfian?a.
"A criatura está vindo," anunciou Orpheus de repente, seu corpo tenso como uma corda de arco. "Pelo lado direito. Vocês devem seguir à esquerda."
Ele consultou rapidamente o mapa que carregava. "Se continuarem à esquerda, encontrar?o uma estrada que leva à estrada principal. A cidade está logo após o lago, a menos de dez quil?metros daqui."
O grupo percebeu com horror o que Orpheus estava sugerindo – ele ficaria para trás e enfrentaria a criatura sozinho, sacrificando-se para que pudessem escapar.
"N?o há ninguém em uma área de dez quil?metros quadrados," continuou Orpheus, como se lesse seus pensamentos. "O caminho até a cidade é seguro."
K sentiu um desconforto profundo. Lembrou-se de si mesma aos dez anos, quando come?ou sua vida como mercenária. "N?o foi assim que fui ensinada," pensou ela. Seu próprio mestre a desprezaria por abandonar uma crian?a para morrer.
"Eu fico," disse ela abruptamente, surpreendendo a si mesma tanto quanto aos outros. "O resto de vocês, sigam em frente. Eu ajudarei o garoto e logo alcan?arei vocês."
"Mas podemos encontrar pessoas ou criaturas no caminho," protestou Loren, claramente assustada com a ideia de continuar sem prote??o.
"Já disse que n?o há ninguém em dez quil?metros," repetiu Orpheus com firmeza. "Vocês estar?o seguros."
"Calem a boca e fa?am o que ele diz," ordenou K, sua paciência esgotada. "V?o logo!"
O grupo hesitou apenas por um momento antes de partir rapidamente. Os idosos lan?aram olhares de gratid?o a K e Orpheus antes de seguir o casal jovem pela trilha à esquerda.
Quando ficaram sozinhos, K olhou para Orpheus com uma nova curiosidade. "Você consegue sentir presen?as a dez quil?metros de distancia? Como?"
Orpheus n?o respondeu, seus olhos fixos na dire??o de onde a criatura se aproximava.
"Estou ficando louca," murmurou K para si mesma, desembainhando sua espada antes de pensar melhor e guardá-la novamente. Contra uma criatura de nível A+, técnicas de luta corpo a corpo seriam mais eficazes.
Em menos de três minutos, a criatura chegou.
Era uma aberra??o que desafiava a compreens?o – quase três metros de altura, com um corpo que parecia feito de borracha, capaz de se moldar e distorcer à vontade. Suas patas eram como as de um gafanhoto gigante, poderosas e articuladas de forma n?o natural. A cabe?a lembrava a de um lobo, mas a boca estava repleta de fileiras de dentes triangulares como os de um tubar?o. N?o tinha pelos; sua pele nua era de um cinza doentio, com veias pulsantes visíveis sob a superfície. Seus olhos eram vermelhos como os de um gato, brilhando na penumbra com uma inteligência malévola. Movia-se com a agilidade impossível de um beija-flor, apesar de seu tamanho monstruoso.
K sentiu seu corpo reagir instintivamente ao horror diante dela – seus bra?os tremiam, sua respira??o ficou ofegante, e um suor frio escorria por sua testa. Toda sua experiência como mercenária n?o a havia preparado para algo assim.
Ent?o a criatura falou.
"Olá."
A voz era doce e melodiosa – a voz de uma menina de sete anos. A dissonancia entre a aparência monstruosa e aquela voz infantil era profundamente perturbadora, como uma pervers?o de tudo que deveria ser inocente e puro.
K sentiu seu sangue gelar. A voz despertou memórias que havia enterrado há muito tempo – lembran?as de uma amiga de infancia que amara profundamente, mas que a deixara para seguir a vida de ca?adora. A mesma amiga que morrera em sua primeira miss?o, seu corpo encontrado mutilado além do reconhecimento.
Com horror, K percebeu que Orpheus n?o demonstrava nenhuma rea??o ao monstro. Seu rosto estava calmo, quase sereno, como se estivesse diante de um desafio rotineiro e n?o de um pesadelo vivo.
Orpheus colocou a m?o na empunhadura da Coyote e olhou brevemente para K. Seu sorriso era radiante, t?o brilhante e puro que por um momento K se lembrou do céu azul de sua infancia, antes que o mundo a endurecesse, antes que aprendesse que sobrevivência significava matar antes de ser morta.
Aquele sorriso a acalmou inexplicavelmente, como se contivesse uma promessa silenciosa de que tudo ficaria bem.
Ent?o, a express?o de Orpheus mudou. Seu rosto ficou sério, concentrado. Fechou os olhos e murmurou palavras que K mal conseguiu ouvir:
"Técnica 1: Dog's Blood."
Ao desembainhar a Coyote, uma energia visível emanou da lamina – uma aura vermelha escura que parecia feita de sangue e raiva concentrados. A aura de Orpheus expandiu-se dramaticamente, tornando o ambiente ao redor mais quente, mais leve.
K sentiu algo estranho acontecer dentro de si – uma sensa??o de felicidade e anima??o que n?o fazia sentido dada a situa??o mortal em que se encontravam. Era como se a própria presen?a de Orpheus estivesse afetando suas emo??es, elevando seu espírito.
As árvores gigantes ao redor come?aram a balan?ar violentamente, como se atingidas por um vendaval que só elas podiam sentir. Folhas vermelhas se desprenderam e come?aram a rodopiar ao redor de Orpheus, formando um tornado escarlate. A lua no céu pareceu brilhar com intensidade redobrada, e as águas do lago se agitaram em ondas que desafiavam a física natural.
Foi nesse momento que K compreendeu – Orpheus n?o estava mentindo sobre seu mestre. O poder que testemunhava era real, extraordinário, e claramente resultado de um treinamento que poucos no mundo poderiam proporcionar.
O que aconteceu a seguir foi t?o rápido que K mal conseguiu acompanhar com os olhos. Orpheus simplesmente... desapareceu. Um borr?o de movimento, um lampejo da lamina da Coyote refletindo a luz vermelha da lua, e ent?o ele estava do outro lado da criatura, sua postura relaxada, a katana já sendo deslizada de volta para a bainha.
Por um momento, nada aconteceu. A criatura permaneceu imóvel, como se congelada no tempo. Ent?o, lentamente, sua cabe?a escorregou do pesco?o e caiu no ch?o com um baque molhado. O corpo permaneceu em pé por mais alguns segundos antes de desabar, sangue negro encharcando o solo.
Orpheus caminhou calmamente em dire??o a K, guardando a Coyote com um movimento fluido e praticado.
K estava paralisada, seus olhos arregalados fixos no garoto que acabara de matar, com um único golpe, uma criatura que deveria estar além das capacidades de qualquer humano normal.
"Quem..." sua voz falhou, e ela teve que engolir em seco antes de tentar novamente. "Quem é seu mestre?"
Orpheus a encarou por um longo momento antes de responder, sua voz calma e clara na noite silenciosa.
"Ele é conhecido como O Ca?ador dos Olhos Negros."
As palavras atingiram K como um golpe físico. Suas pernas fraquejaram, e ela caiu de joelhos, seu mundo inteiro virando de cabe?a para baixo com aquela simples frase.
O Ca?ador dos Olhos Negros. A pessoa mais procurada do mundo. O homem que, segundo as lendas, havia matado reis e imperadores, destruído exércitos inteiros sozinho, e desaparecido como fuma?a após cada feito impossível.
E ela havia estado na presen?a dele sem sequer saber.
A alguns metros de distancia, escondido entre as árvores gigantes, Zack observava a cena com um pequeno sorriso de orgulho. Seu pupilo havia crescido mais do que esperava. Talvez fosse hora de revelar mais sobre seu passado, sobre o verdadeiro propósito de estarem no Continente Vermelho.
Mas por enquanto, ele continuaria observando, protegendo de longe, permitindo que Orpheus descobrisse sua própria for?a.
A verdadeira ca?ada estava apenas come?ando.

