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Capitulo 7 Os Sussurros

  Nos alojamentos, a porta mal fechou e as palavras come?aram a sair desordenadas, atropeladas, pesadas demais para ficarem presas.

  — Se eu tivesse esperado dois segundos antes de explodir... — Anne murmurou, sentada no ch?o, os bra?os apoiados nos joelhos. — Talvez a onda n?o tivesse sido t?o forte.

  — N?o foi culpa sua — Grace respondeu rápido demais. — Eu que devia ter impulsionado todo mundo antes. Eu vi os fragmentos vindo. Eu podia ter sido mais rápida.

  — Eu podia ter levantado uma muralha maior — Pedro retrucou, andando de um lado para o outro. — Se eu tivesse puxado o solo inteiro da pra?a...

  — E esmagado metade da cidade junto — Cristopher rebateu, mas sem agressividade. — Eu devia ter puxado mais água. Uma onda gigante podia ter abafado o impacto secundário.

  — Uma onda gigante no meio da feira? — Maisa fechou os olhos. — A gente teria feito outra catástrofe.

  — ótimo. Ent?o a culpa é coletiva — Pedro concluiu, esfregando o rosto com as m?os. — Democrático pelo menos.

  Ninguém riu.

  Beth estava encostada na parede, ainda sentindo os ecos da energia que usara.

  — Eu n?o consegui estabilizar todos... — a voz falhou. — Tinha gente demais.

  Evan permanecia quieto.

  O calor no peito ainda estava lá.

  Ele n?o culpava nenhum deles.

  Mas a palavra se ecoava na cabe?a de todos.

  Do lado de fora, Aster murmurava.

  Grupos pequenos conversavam em voz baixa. O Vale estava sendo reconstruído às pressas. Produ??o em massa de alimentos e tecidos já havia come?ado. Abrigos improvisados surgiam nos pátios da fazenda. Carro?as iam e vinham com suprimentos.

  Mas o medo estava ali.

  E se acontecer aqui?

  ... Na manh? seguinte

  O Lobby central , aberto, ao lado do sal?o de refei??es , estava lotado.

  Victor Dellamuta subiu à pequena plataforma de madeira improvisada. Ele parecia mais cansado do que na noite anterior.

  — O que aconteceu no Vale foi uma tragédia que nenhum de nós imaginou presenciar — come?ou, a voz firme, mas carregada. — Perdemos amigos. Perdemos Diogo. Perdemos membros da nossa própria comunidade.

  Um silêncio respeitoso percorreu o espa?o.

  Ao fundo, Pedro, Evan e Cristopher chegaram atrasados.

  — ótimo — murmurou Pedro. — Chegamos na parte traumática do discurso.

  — Cala a boca — Cristopher respondeu baixo.

  Victor continuou:

  — As demandas aumentaram. Estamos ampliando a produ??o de alimentos e tecidos para atender os feridos. Abrigos foram improvisados. Todas as comunidades est?o contribuindo.

  Ele respirou fundo.

  — Estamos unidos.

  Uma voz surgiu do meio da multid?o:

  — Ainda estamos seguros depois de tudo isso?

  O ar pareceu prender.

  Os jovens sentiram os olhares.

  N?o diretamente acusatórios.

  Mas questionadores.

  Evan manteve o olhar baixo.

  Pedro desviou para o lado.

  Cristopher cruzou os bra?os.

  Victor respondeu, firme:

  — Estamos tomando todas as medidas necessárias. N?o vamos abandonar ninguém. E n?o vamos apontar culpados antes de entender o que aconteceu.

  Subentendido.

  Protegendo-os.

  Mesmo assim, o peso ficou.

  Anne foi a primeira a sair.

  Evan a seguiu.

  O grupo inteiro foi atrás.

  O antigo bar do resort ficava afastado, quase escondido, com seu mezanino interno e a vista para a corrente d'água que levava ao lago principal. A pequena cachoeira artificial escorria ao lado da grade frontal, constante, tranquila.

  Era o refúgio deles.

  Ali se falava de tudo.

  Garotas, estratégia, piadas ruins do Pedro.

  Beijos roubados.

  Agora, falavam de saída.

  — Depois daquela pergunta? — Maisa disse. — A decis?o já foi tomada por eles.

  — Ou por nós — Anne respondeu.

  Pedro apoiou os cotovelos na grade, olhando o gramad?o ao longe.

  — Eu sempre quis sair dramaticamente. Só n?o imaginava que seria num clima de "talvez sejamos amea?a existencial".

  — Você adora isso — Cristopher provocou.

  — Eu adoro ser incrível. N?o ser problema.

  Silêncio.

  Evan olhava o campo de flores lilases.

  — Se ficarmos... vamos continuar atraindo isso.

  Anne aproximou-se dele.

  — Ou já estamos no meio disso, independente de onde fiquemos.

  Ele olhou para ela.

  — Você sentiu também, n?o foi?

  Ela assentiu.

  — N?o foi só um meteoro.

  A decis?o foi simples.

  Partiriam ao anoitecer.

  A decis?o de partir ainda estava fresca quando o som chegou.

  N?o foi explos?o.

  N?o foi sirene.

  Foi algo mais seco.

  Motores pesados.

  Ritmo coordenado.

  N?o havia hesita??o na entrada dos caminh?es desta vez. Eles cruzaram o port?o principal de Aster como se o espa?o já lhes pertencesse. Pneus esmagaram a brita do pátio central e levantaram uma nuvem de poeira clara que demorou a se dissipar.

  N?o houve pedido de identifica??o.

  N?o houve negocia??o.

  As portas traseiras se abriram antes mesmo de os veículos pararem completamente.

  Homens e mulheres saltaram com precis?o ensaiada. Uniformes escuros, placas de prote??o segmentadas no peito e nos ombros, capacetes lisos com visor opaco que escondia completamente os olhos. O tecido parecia couro tratado com algum tipo de malha metálica entrela?ada, n?o pesado, mas rígido o suficiente para absorver impacto.

  As armas que carregavam n?o tinham cano convencional. Eram estruturas alongadas com cilindros laterais translúcidos, onde uma energia pálida vibrava em pulsos lentos. N?o era muni??o comum. N?o havia cheiro de pólvora. Era algo diferente. Concentrado.

  Raul desceu primeiro.

  Atrás dele, Gehard.

  A postura de Gehard n?o era a de um soldado terrestre. Era mais ereta, mais silenciosa. O olhar varreu Aster como quem já conhecia o lugar, mas agora o via sob outra perspectiva.

  — Ent?o... come?ou — murmurou Raul, observando o movimento nervoso dos moradores.

  — Já estava em movimento — respondeu Gehard, sem desviar os olhos do gramad?o ao longe.

  — Você acha que suas crian?as têm a ver com isso?

  O maxilar de Gehard tensionou.

  — Acho que eles sabem mais do que imaginam. E estiveram no epicentro.

  The tale has been stolen; if detected on Amazon, report the violation.

  Raul observou a fuma?a que ainda se erguia ao longe, na dire??o do Vale.

  — Os sinais batem com Pier 1. Batem com Aster. Batem com a cratera.

  Ele fez uma pausa.

  — Isso é motivo suficiente para intervir?

  — Se aquilo estava próximo de Evan e Anne — respondeu Gehard, finalmente olhando para ele — é motivo suficiente para n?o esperar.

  Os soldados come?aram a se espalhar pelas ruas de Aster.

  Nenhum morador tentou impedir.

  O silêncio que acompanhava a marcha era mais alto do que qualquer protesto.

  Ruth entrou quase correndo, mas controlando a respira??o.

  — Eles n?o pediram permiss?o dessa vez.

  O grupo já estava de pé.

  Evan sentiu antes de ouvir.

  N?o os soldados.

  Outra coisa.

  O vento mudou.

  Leve.

  Frio.

  O campo de flores lilases no antigo gramad?o come?ou a ondular de forma irregular. N?o como uma rajada comum que atravessa tudo na mesma dire??o. Havia padr?es. Ondas circulares se formando e se desfazendo.

  — N?o é só eles — Luiz disse baixo.

  Ele estava ao lado de Evan.

  Os dois escutaram primeiro.

  N?o como som externo.

  Como press?o interna.

  Um arranhar distante.

  Como correntes sendo arrastadas sobre pedra molhada.

  Como metal vibrando em uma camara fechada.

  Anne ergueu o rosto lentamente.

  — Eles est?o aqui.

  — Quem? — perguntou Pedro, já se movendo em dire??o à saída. — Porque hoje o pacote de recep??o está completo.

  Ruth saiu primeiro, o grupo atrás dela.

  Ao alcan?arem o gramad?o, o ar parecia mais pesado do que deveria. A luz do fim de tarde estava dourada demais, como se estivesse filtrada por algo invisível.

  Os soldados já se aproximavam pela rua principal.

  E ent?o, entre os troncos altos e retos do bosque de eucaliptos, as sombras se reorganizaram.

  N?o surgiram.

  Se separaram.

  Como se sempre estivessem ali, apenas sobrepostas ao cenário.

  As primeiras máscaras tornaram-se visíveis.

  Cranios de bode.

  N?o estilizados.

  N?o ornamentados.

  Eram organicos.

  Amarelados pelo tempo, fissurados nas extremidades dos chifres, alguns com marcas de queimadura escurecendo as cavidades oculares. Outros tinham os chifres curvados para frente, como laminas naturais. Alguns apontavam para o céu, longos e assimétricos.

  As órbitas dos cranios n?o estavam vazias.

  N?o havia olhos.

  Havia uma névoa escura ali dentro. Densa. Profunda demais para ser apenas sombra.

  Os capuzes eram feitos de tecido pesado, quase áspero, escuro como carv?o úmido. N?o balan?avam com o vento como deveriam. Pareciam aderidos ao corpo por dentro.

  As correntes envolviam os bra?os desde os ombros até os punhos. N?o eram correntes comuns — os elos eram irregulares, alguns alongados demais, outros espessos como dedos. Elas n?o apenas pendiam.

  Vibravam.

  E a vibra??o era o sussurro.

  Cada passo deles produzia um som metálico baixo, contínuo, que parecia ecoar dentro do cranio de quem escutava.

  As laminas pendiam presas às correntes, algumas curvas como foices, outras retas como estacas. N?o brilhavam. Absorviam luz.

  — Eu retiro o que disse sobre ter?a-feira comum — Maisa murmurou. — Isso aqui já é quarta-feira apocalíptica.

  As figuras n?o corriam.

  Avan?avam com passos lentos, sincronizados.

  O espa?o entre elas e os jovens diminuía em silêncio calculado.

  Do outro lado do campo, os soldados ergueram as armas.

  Um deles sussurrou algo no comunicador.

  — Alvos múltiplos no bosque. N?o s?o civis.

  Raul surgiu à distancia.

  Gehard viu.

  E o reconhecimento passou pelo rosto dele como um relampago contido.

  — Eles atravessaram — murmurou.

  Evan deu um passo à frente.

  O calor no peito aumentou.

  N?o como dor.

  Como resposta.

  Ruth observava tudo com frieza técnica, mas a pulsa??o nas têmporas denunciava que aquilo fugia completamente de qualquer modelo que ela pudesse calcular.

  — Isso n?o é terrestre — ela murmurou. — N?o é fen?meno energético comum.

  Os soldados come?aram a avan?ar.

  As figuras mascaradas também.

  


  


  O gramad?o, com suas flores lilases ondulando sob o vento irregular, tornava-se o ponto de colis?o inevitável.

  O som do lado de fora pareceu se apagar de uma vez. N?o foi como quando alguém fecha uma porta; foi como se o mundo tivesse sido afastado alguns metros, colocado atrás de um vidro invisível. O vento que agitava as flores lilases cessou, o tilintar das correntes desapareceu e até os passos dos soldados deixaram de existir. Evan escutava apenas a própria respira??o, pesada e irregular. Ent?o, gradualmente, nem isso permaneceu.

  Restou apenas ele.

  Um espa?o claro, suspenso, onde n?o havia gramad?o, nem soldados, nem máscaras. N?o havia amea?a, nem fuga. Apenas consciência.

  E foi ali que a voz surgiu.

  Clara. Direta. Sem eco, sem distor??o, sem o arranhar metálico que acompanhava os Sussurros. N?o invadiu sua mente; n?o for?ou passagem. Ela simplesmente estava ali, como se sempre tivesse estado.

  — Evan. Corra. Agora.

  Ele soube imediatamente que n?o vinha de fora. N?o atravessava sua mente como algo estranho tentando dominá-lo. N?o pressionava. N?o exigia. Era íntima. Familiar. Antiga demais para ser novidade.

  Os Sussurros eram como dedos frios tentando abrir sua cabe?a à for?a.

  Aquilo n?o.

  Aquilo era parte dele.

  Ou algo que vivia ali há muito tempo.

  Evan abriu os olhos abruptamente, puxado de volta para o mundo real como quem emerge da água depois de prender a respira??o por tempo demais.

  O gramad?o reapareceu diante dele, as flores lilases ondulando sob um vento irregular que parecia soprar em dire??es contraditórias. O céu estava pesado, dourado demais, quase espesso. As figuras mascaradas já n?o avan?avam em passos calculados. Corriam.

  Corriam direto na dire??o deles.

  Os capuzes escuros se agitavam com a velocidade, as correntes vibravam em torno dos bra?os como serpentes metálicas, e as laminas presas aos elos giravam em arcos cortantes que rasgavam o ar. O som voltou de uma vez — o estalo das armas sendo disparadas, o grito distante de ordens, o impacto seco de energia contra metal.

  Evan percebeu que os disparos dos guardas n?o vinham contra ele nem contra seus amigos. As rajadas de energia partiam da linha formada por Raul e Gehard e atingiam os Sussurros com precis?o calculada.

  O campo havia se tornado um corredor de confronto.

  Beth reagiu antes que qualquer disparo pudesse atingi-los. Em um movimento quase instintivo, ergueu as m?os e moldou esferas translúcidas de energia dourada ao redor de cada membro do grupo. As barreiras n?o eram grossas, mas vibravam com firmeza suficiente para absorver impactos diretos. Logo à frente, Anne avan?ou um passo e abriu os bra?os, erguendo uma parede energética roxa que se expandiu como um painel sólido, bloqueando a trajetória dos Sussurros que vinham em disparada.

  Por um segundo, pareceu que a conten??o funcionaria.

  Mas eles saltaram.

  N?o desaceleraram, n?o tentaram romper a barreira frontal. Usaram a própria velocidade para impulsionar seus corpos para cima, ultrapassando a parede em arcos impossíveis, como se a gravidade n?o tivesse a mesma influência sobre eles. As correntes giraram no ar, e as laminas produziram um som agudo ao cortar o vento. Um dos agen

  N?o vieram diretamente contra o grupo.

  Passaram por eles.

  E avan?aram contra os guardas.

  Os disparos robotizados se intensificaram. Rajadas de energia cruzaram o gramad?o em linhas precisas, atingindo correntes, troncos de árvores, o solo. Gehard avan?ou novamente, interceptando um dos encapuzados com a lamina vibrando em um arco dourado.

  — Corram para o bosque! — Evan gritou, já se movendo.

  O grupo n?o hesitou. Eles dispararam em dire??o ao bosque de eucaliptos enquanto atrás deles o confronto se tornava brutal. Disparos, metal, ordens gritadas, explos?es de energia.

  Dois Sussurros se desvincularam do combate e vieram atrás deles.

  O bosque os recebeu com sombras longas e cheiro de madeira úmida. As árvores altas formavam um corredor irregular, e o solo era coberto por folhas secas que estalavam sob os pés.

  As laminas vieram primeiro.

  Arremessadas.

  As correntes se estendiam de forma antinatural, alongando-se como se n?o tivessem limite físico. Uma delas passou a poucos centímetros do rosto de Luiz, cortando o ar com violência. Ele se abaixou por reflexo enquanto o metal raspava o tronco de uma árvore atrás dele.

  — Eles estendem! — Pedro gritou ao longe.

  O grupo acelerou. Logo atrás, alguns guardas entraram no bosque, atirando na dire??o dos Sussurros que os perseguiam. Os disparos atingiam os troncos de eucalipto, arrancando lascas grossas de madeira que voavam em todas as dire??es. Alguns Sussurros saltavam alturas absurdas, usando os próprios troncos como apoio para impulsos verticais. Quando uma árvore era atingida repetidamente, eles a empurravam ou a cortavam na base com as laminas, fazendo-a despencar na dire??o do grupo.

  Agora era caos.

  Eles desviavam de tiros, de correntes cortando o ar e de árvores em chamas caindo ao redor.

  Com as primeiras quedas, o grupo se dividiu.

  Evan, Ruth, Grace e Maisa avan?aram mais à frente, conseguindo escapar da linha direta do fogo. Pedro, Cristopher e Beth ficaram para trás, desviando de uma árvore que caiu transversalmente, bloqueando parte do caminho.

  Anne se afastou ainda mais.

  Luiz tentou alcan?á-la, mas um Sussurro cortou o espa?o entre os dois. Ele ergueu dezenas de agulhas de luz, concentrando-as acima dos ombros e disparando em sequência contra a figura encapuzada. O Sussurro rodou a corrente diante do próprio corpo, criando um escudo giratório que desviou as agulhas em angulos imprevisíveis. Algumas ricochetearam e atingiram as copas das árvores, iniciando focos de incêndio que rapidamente come?aram a se espalhar pela folhagem seca.

  Os Sussurros perceberam.

  E passaram a usar o fogo.

  Derrubavam árvores já incendiadas em dire??es estratégicas, bloqueando rotas de fuga, for?ando o grupo a se separar ainda mais.

  Anne corria entre troncos e fuma?a quando três Sussurros surgiram diante dela. Ela freou bruscamente, os olhos já acendendo em um roxo profundo que agora exalava chamas visíveis. O calor emanava das m?os, formando labaredas densas que envolviam seus bra?os.

  Ela se preparava para atacar.

  Mas outros três apareceram.

  N?o correram até ela.

  Eles deslizaram.

  O ar diante de Anne se rasgou como uma fissura invisível na camada do espa?o. Um corte fino, quase imperceptível, abriu-se no ar e deles simplesmente emergiram, como se atravessassem uma película translúcida entre dois lugares.

  Em segundos, seis Sussurros formaram um círculo ao redor dela.

  Anne avan?ou o primeiro passo para romper o cerco, mas o ataque deles foi coordenado demais.

  As correntes dispararam em sincronia.

  Enrolaram-se em seus bra?os, nas pernas, no torso, comprimindo seus movimentos junto ao corpo. As laminas n?o foram cravadas para matar. Foram posicionadas com precis?o cruel, penetrando superficialmente nos pontos de movimento — ombros, coxas, laterais — impedindo qualquer impulso sem atravessar órg?os vitais.

  Ela foi imobilizada completamente.

  As chamas roxas ainda ardiam em seus olhos.

  Luiz surgiu entre a fuma?a a cerca de cinquenta metros e parou abruptamente ao ver a cena. O choque atravessou seu corpo antes que ele pudesse reagir.

  — Anne! — a voz saiu rasgada.

  Ele ergueu centenas de agulhas de luz acima da cabe?a, formando uma constela??o concentrada. Disparou todas de uma vez contra o círculo.

  No mesmo instante, uma chama roxa explodiu do ponto onde Anne estava envolta pelas correntes. A labareda subiu verticalmente, intensa, comprimida, quase sólida. E, num movimento sincronizado, os seis Sussurros também come?aram a cuspir chamas escuras de seus próprios corpos, direcionando-as para o céu.

  Foi tudo em quest?o de segundos.

  As agulhas atravessaram o pared?o de fogo e fuma?a.

  E ent?o, numa única explos?o surda, tudo desapareceu.

  As agulhas seguiram adiante, atingindo árvores à frente, mas onde o círculo estava n?o havia mais nada além de fuma?a se dissipando.

  Os Sussurros sumiram.

  Anne sumiu.

  A explos?o ecoou pelo bosque. Evan e os outros ouviram e mudaram a dire??o imediatamente. Quando chegaram, Luiz estava de joelhos no ch?o, as m?os tremendo, lágrimas escorrendo pelo rosto enegrecido de fuligem.

  Evan se aproximou primeiro.

  — O que aconteceu?

  Luiz tentou falar, mas a voz falhou. Ele respirou fundo, for?ando-se a manter o controle.

  — Eles levaram ela... — disse finalmente. — Os Sussurros... levaram a Anne.

  A frase atravessou Evan como lamina.

  O calor no peito se transformou em algo diferente.

  N?o era apenas energia.

  Era culpa.

  Como aquilo podia ter acontecido? Como ele n?o sentiu antes? Como permitiu que cercassem ela enquanto ele corria?

  Ele caiu com um joelho no ch?o, a cabe?a baixa, o cenho franzido com for?a. Segurava o choro, mas o tremor no maxilar denunciava a luta interna.

  à frente, ele sentiu os guardas se aproximando. Eles também ouviram a explos?o. Estavam chegando.

  Evan ergueu o rosto lentamente.

  Seus olhos azuis agora estalavam com faíscas elétricas visíveis. Pequenos raios dan?avam nas íris acesas. Ele se levantou com uma express?o que n?o era apenas dor.

  Era fúria.

  O céu acima dele come?ou a escurecer, nuvens se formando com velocidade anormal, como se fossem puxadas para um ponto específico. O vento mudou de dire??o abruptamente, rajadas violentas cortando o bosque. A press?o do ar se alterou, comprimindo o espa?o ao redor. O ambiente ficou estático, elétrico, carregado.

  Evan inspirou profundamente, expandindo o peito ao máximo.

  E ent?o gritou.

  O som n?o foi humano.

  Foi um rasgo de trov?o.

  Uma barreira gigantesca de energia elétrica surgiu à sua frente, expandindo-se como um muro translúcido vibrante. Com um sopro voraz, ele a lan?ou para frente. A onda avan?ou devastando o caminho, derrubando árvores, arremessando soldados para longe, espalhando brasas e fuma?a em todas as dire??es.

  Quando a energia dissipou, o cenário à frente estava irreconhecível.

  Troncos tombados.

  Fuma?a subindo em colunas densas.

  Guardas espalhados entre madeira quebrada e chamas.

  Evan permaneceu de pé, respirando com dificuldade, os olhos ainda acesos, observando o estrago que causara.

  


  


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