Numa paisagem repleta de cores vibrantes, uma orquestra tocava em plena luz do dia, ecoando por toda a cidade de Kromslaing. N?o era um som alto, mas suas vibra??es delicadas e a paix?o de cada músico, era o que dava a for?a necessária para atingir os cora??es dos cidad?os.
N?o havia um dia em que a orquestra do castelo n?o saudava à todos com sua música agradável. Era uma can??o alegre, cujas notas expeliam esperan?a e um sentimento nostálgico, como o gosto agridoce de um café de um ente querido que já se foi.
Entretanto, mesmo debaixo desse ambiente alegre, o mal sempre existiu.
Nas costas do castelo principal, havia um imenso jardim que poucos conheciam. A sua fama alastrou-se quando uma certa pessoa come?ou a visitá-lo: a única filha dos Asdoth, a bastarda acolhida pelo chefe da família.
Seus cabelos negros compridos e as orelhas caídas indicavam a sua natureza meia-humana, meia-elfo. Porém, apesar de todas as dificuldades, a paz no jardim oculto lhe tirava algum sorriso. As borboletas a adoravam. A natureza sorria para ela de volta.
Mas pelas janelas do castelo, seus irm?os a viam com desgosto, os funcionários, em sua maioria, a achavam um monstro. Contudo, havia uma exce??o…
一 Jeanice? Está aqui t?o cedo, querida…
Com um balde de ferro em m?os e uma pequena pá, a velhinha se aproximava já corcunda por cuidar desse jardim há tantos anos.
一 S-Senhora Willy…!
Antes que a meia-elfa pudesse se levantar do gramado, a jardineira estendeu a m?o com a pá para que ela ficasse.
一 N?o se importe comigo… é um prazer pra mim ter a sua visita.
Agachando-se ao lado da garota, a mulher pegava o adubo dentro do balde com a pá pequena e colocava gentilmente pelos canteiros.
Com as palavras da senhora, Jeanice que abra?ava os próprios joelhos enquanto agachada, pareceu afundar o rosto por entre as pernas.
一 Você… é a única que fala isso pra mim…
一 Hoho! Que gracinha…~ Esse seu jeito tímido me lembra a minha netinha.
Por sempre receber o desprezo e os maus tratos, emo??es como essa n?o eram nada normais para ela. As orelhas pontudas chacoalharam para baixo e para cima com felicidade e, o rosto, outrora pálido, ruborizou pelo mesmo motivo.
"A neta da senhora Willy... Espero que nos tornemos amigas..."
Passando pelo corredor próximo à porta que dava acesso a esse jardim, uma garota de cabelo dividido entre o rosa e o loiro, via o sorriso vindo da aberra??o. Seus olhos expressavam mais do que qualquer palavra de ódio ao ver a bastarda amada pela natureza.
Depois desse dia, a sensa??o quentinha em seu cora??o aos poucos se apagou. O frio se instaurou como nas noites em claro que passava na espera da senhora jardineira, que nunca mais retornou.
Ao abrir os olhos por entre os joelhos, o rosto se levantou. O quarto estava escuro e o símbolo do Grande Sol já n?o brilhava mais.
“Pessoal… Eles já foram?”
Levantando-se com cuidado, Senhor Oddy permanecia agarrado pelo bra?o direito abaixo da axila. Os olhos azulados brilhantes, esbugalhados pelo silêncio aterrorizante e a escurid?o, ressoavam em um sentimento reconfortante e familiar: a solid?o.
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Porém, conforme foi observando o quarto escuro, conseguiu discernir um brilho carmesim vindo de um papel em cima de uma bancada.
“Essa energia é da Carmen…”
Aproximando-se, as m?o magras saíram pelas frestas do manto negro que a encobre. Os ombros finos, recolhidos, tremiam por certa ansiedade para querer ler logo o que estava escrito ali.
Antes de abrir a carta, a garota engoliu seco.
“Jeanice, a gente foi pro Castelo, como você deve ter escutado antes de dormir. Caso as coisas fiquem perigosas, n?o precisa se intimidar… Aquela sua chuva de esferas de energia foi bem pesada. Você n?o é fraca (Mas ainda está longe de ser t?o forte quanto eu). Estamos te esperando, ou você espera a gente aí... Assinado: a mais forte do grupo ?...”
As m?os magras segurando o papel, come?aram a tremer.
Naquele quarto escuro com o símbolo de prote??o apagado, as lágrimas escorreram do rosto dela silenciosamente. Entretanto, a cabe?a balan?ou negativamente. Em seguida, o antebra?o enfaixado secou as suas lágrimas.
“N?o é hora de ficar emocionada… Se eu puder ser útil pra eles de algum jeito… Eu preciso sair daqui!”
Dobrando a carta e colocando-a no bolso de seu colete social, Jeanice escuta passos pelos corredores. Imediatamente, a m?o direita busca a varinha na cintura pela esquerda. Nesse instante, a ponta cintilou como uma névoa espectral…
一 A garota está aqui mesmo?
一 Aparentemente sim. Só três saíram daqui de dentro, de acordo com a atendente.
A ma?aneta girou com lentid?o e o ranger da porta se alastrou como um ruído quase imperceptível. Contudo, à medida que o quarto se abriu, a densa névoa os envolveu com sutileza.
Antes que percebessem, estavam paralisados com os olhos completamente azulados.
“N?o vai demorar pra eles perceberem que é uma ilus?o! Preciso sair!”
Passando pela porta recém aberta pelos encapuzados, ela correu em dire??o às escadarias para descer e sair da pousada.
一 O que foi isso?
一 Era uma ilus?o…
一 A garota n?o está aqui!
一 Ela deve ter acabado de fugir! Vem!
“Droga… Droga...!”
Diferente dos outros três, o físico dela n?o era nenhum pouco apropriado para a a??o. Mesmo correndo em alta velocidade, sua dificuldade ficava notável pela respira??o ofegante…
Ao descer as escadarias, a recep??o estava vazia. As portas já abertas, eram invadidas pelo brilho do luar infernal: a enorme esfera da noite encarou Jeanice com uma vibra??o gentil…
Os olhos azulados estremeceram ao encará-la de volta.
“Que bonito…”
一 Ela tá ali!
Quando a voz de um dos Bealerins chegou aos seus ouvidos, o encantamento se quebrou. Ao olhar para trás, percebeu a energia negra concentrada nos palmos de um dos encapuzados. No outro segundo, ela foi disparada como um vulto!
Contudo, com a varinha em m?os, um único brandir horizontal desviou o breu como um fluxo de névoa espectral. O projétil atingiu as ruas como uma massa negra que empurrou a cal?ada.
一 Merda! Ela é uma feiticeira!
一 Dispara o sinalizador!
Já tendo se afastado há alguns metros, a garota sentiu dores do lado esquerdo do abd?men. Seu despreparo físico a fez desacelerar pouco a pouco, conforme se defendia dos projéteis desses dois perseguidores.
De repente, uma esfera negra em tons vermelhos subiu aos céus e explodiu como trov?es, mas em um som agudo. A audi??o excepcional da meia-elfa se demonstra prejudicada, ao ponto da vis?o dela ser afetada por uma náusea.
Trope?ando nos próprios pés, a garota caiu já sem for?as de frente para a Pra?a Ander.
Olhando para trás, observou os dois inimigos prestes a finalizá-la. Fechando os olhos ao aceitar o próprio destino, também agarrou o senhor Oddy com ainda mais for?a.
“Me desculpa… Me desculpa... Eu n?o sou forte…”
Lacrimejando enquanto o semblante se contorcia esperando o fim, os sons de passos com salto alto ficaram mais nítidos conforme a audi??o se recuperava.
一 Basta… Essa é uma conhecida minha.
A voz familiar ressoou pela mente de Jeanice. Apoiando-se com as m?os, ela levantou o semblante.
一 Há quanto tempo, Jinny…
De frente para a garota esfarrapada e magra, havia uma mulher com trajes maduros e um batom púrpuro. Um vestido provocante com plumagem completamente negra ao redor do pesco?o, mas aberto pela frontal e servindo como uma grande gola.
Os grandes brincos prateados, a cabeleira em um tom de roxo extremamente escuro e os olhos verdes como folhas de primavera.
一 E-Edina…
Os lábios negros da meia-elfa sussurraram em surpresa. Ao vê-la, a lembran?a da velha Willy veio em sua mente. As imagens de uma garota pequena com o rosto coberto por uma franja enorme se sobrepuseram em um comparativo com a mulher madura à frente.
一 Você está igualzinho há dez anos atrás, Jinny. O sangue élfico é realmente uma ben??o contra a velhice…
Um sorriso de lábios se estabeleceu na fei??o da mo?a. Os olhos se estreitaram contendo alguma maldade. Porém, a meia-humana jamais perceberia essas inten??es…
Estendendo o palmo para a invasora, Edina respira fundo e volta a falar:
一 Venha pro Castelo… Nós somos amigas, lembra? A vovó Willy adorava cuidar dos jardins de Kromslaing com a gente.
Confusa, a menina olha para o palmo e vem a aproximar uma de suas m?os. Algo parecia errado, mas o vínculo que existia entre elas, era convincente o suficiente para aceitar a sua companhia.
“Eu… ouvi certo? Minha cabe?a ainda tá zumbindo pelo estouro…”
Ao contrário da Truman, o semblante de Jeanice demonstrou um sorriso puro que se formou aos poucos. As orelhas até se moveram para cima e para baixo e, a sensa??o de calor novamente preenchia o seu cora??o.
“Espero que eu possa apresentar a Edina pro pessoal… Aposto que ela se daria bem com a Carmen…!”
Mas, infelizmente, essa ingenuidade logo seria quebrada. Afinal, humanos n?o s?o confiáveis e espontaneos como os elfos… Jeanice jamais esperaria isso vindo de uma pessoa que era t?o próxima dela no passado.

