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Capítulo 44 - Noite Enfeitiçada

  As portas da pousada se abrem.

  Do lado de fora, a energia corrompida flui para dentro esvoa?ando as vestimentas de Yurgen, Raisel e Carmen.

  Esse fluxo carrega consigo os sentimentos de desamparo, das frustra??es e a melancolia contida nas entranhas dessa cidade. Tanta negatividade lhes causa uma sensa??o de pesar, mas eles rapidamente se protegem ao imporem suas respectivas vontades como uma prote??o ao redor do corpo.

  Do prateado circundante no velho, do dourado eufórico no jovem e do vermelho requintado na mulher, o que realmente chama a aten??o deles é o que está acima de suas cabe?as.

  A lua, outrora tímida, se demonstra autoritária e uma regente do lugar. Seu tamanho é colossal, ao ponto de ser impossível n?o vê-la mesmo sem olhar diretamente.

  Porém, pela sua presen?a, as sombras nesse lugar est?o opacas e sem vida. A falta de vitalidade nas cores n?o é somente nas trevas, mas também no próprio fulgor delicadamente azulado e esbranqui?ado, vindo do astro no céu.

  Para o garoto, o frio do anoitecer é familiar. A sensa??o arrepiante, no qual o alerta, indica que o perigo está à espreita. Por isso, os lábios dele se curvam em uma fei??o confiante, mas superficial.

  Na verdade, a escurid?o frígida e a corrup??o desse lugar se estabelece como incomparável mesmo em suas experiências passadas.

  Por outro lado, a ruiva e o arqueiro permanecem inexpressivos. Focados em identificar as amea?as, Yurgen respira profundamente antes de convocar Svartgren, o seu arco conectado.

  一 O Geloscht vindo do Castelo é t?o pesado que consigo perceber mesmo com o Zienung… O problema é que n?o há mais nenhuma luz individual. Todos, sem exce??o, est?o corrompidos.

  Após a fala, Carmen estende o palmo e convoca o seu florete.

  Ao mesmo tempo, o rapaz também materializa a espada das cinco estrelas.

  一 N?o ataque qualquer coisa que se mexer, Ray. Espere alguma hostilidade ou o nosso sinal.

  A mulher séria, introduz passos à frente ao se aproximar das costas do arqueiro e deixar o garoto para trás, na retaguarda.

  一 Certo.

  Com a confirma??o, os três iniciam uma caminhada breve, mas que é rapidamente substituída por uma acelera??o incrível.

  Ao se moverem em alta velocidade, impulsos os levam até o topo dos edifícios um após o outro.

  De longe, na parte mais alta do morro que sustenta Kromslaing, o Castelo fica cada vez mais próximo.

  Porém, enquanto o arqueiro e a espadachim est?o fixos no objetivo, o olhar de Raisel devaneia para baixo ao visualizar pessoas vagando pela cidade mesmo sob o “Inferno da Noite”.

  De crian?as à idosos, de homens e mulheres, as ruas est?o silenciosas n?o por falta de gente, mas sim pela falta de consciência vindo dessas pessoas.

  Elas vagam lentamente com os lábios entreabertos, inexpressivos. Pelos seus corpos, as suas veias est?o destacadas em um tom negro como rachaduras que se abrem em meio à colora??o pálida da pele. Contudo, o mais assustador é a falta de uma íris com os olhos completamente esbranqui?ados…

  “Isso se parece com aquilo.”

  Ao vê-los, o garoto imediatamente se lembrou da cena em que seus tutores foram pegos na ilus?o de Jeanice.

  Balan?ando a cabe?a de um lado para o outro rapidamente, ele desfaz esse pensamento e essa memória. Seu foco já estava sendo disperso em outros assuntos, desviando-se do perigo da realidade.

  Em meio a um suspiro, os olhos de Raisel se abrem em espanto. Uma sensa??o de formigamento, um pinicar aparece como vibra??es em seu ombro direito.

  “O que… é isso?”

  Com a aten??o fisgada, ele leva o olhar para a direita. De longe, observa alguém em cima de uma casa. O semblante dessa pessoa está parcialmente coberto por uma máscara que tapa as bochechas e os lábios. Suas vestimentas s?o detalhadas em uma colora??o negra em uma pelagem rasa envolvente no pesco?o, pulsos e tornozelos.

  Mesmo há dezenas de metros, essa figura estende o palmo para a dire??o deles. Em um instante, a sensa??o de formigamento se torna forte o suficiente para se parecer um calor mínimo.

  A hostilidade emanada por esse indivíduo alerta Yurgen e Carmen que deslizam o olhar como bestas famintas. Logo, a m?o do desconhecido libera um fluxo escurecido como um redemoinho que se separa em projéteis pequenos.

  O ambiente opaco ajudou a possibilitar a visualiza??o clara desse ataque, por isso, o trio n?o demorou para identificar a amea?a.

  Ao invés de desviarem do caminho para o objetivo, Carmen e Raisel se movimentaram para baixo em dire??o às ruas. Com isso os projéteis passaram pelo alto, mas um rasgo prateado rasgou o ar e perfurou em um piscar de olhos a testa do indivíduo ao longe.

  De cima, Yurgen permanece a se movimentar após eliminar o primeiro.

  Os olhos cinzentos buscam os dois abaixo. Em um acenar da cabe?a do velho, os outros dois consentem.

  Os espadachins, por sua vez, tomam à frente e seguem com mais velocidade.

  à diante, mais desses Pag?os hostis.

  一 S?O OS FORASTEIROS QUE O BAR?O NOS INFORMOU! CORROMPAM ELES OU OS MATEM!

  Uma figura central dentre os outros exclama enquanto suas Trevas fluem em projéteis.

  Em passos mais ágeis, o garoto ultrapassa a mulher. O brilho dourado de sua espada se intensifica em uma alvorada e os inúmeros pontos iluminados dentro de si, se entrela?am em linhas que formam a Constela??o de Aquarius.

  “Kalte Welle!”

  O urro mental é acompanhado de um balan?ar ascendente da lamina. O Gewissen dele flui para frente como uma avalanche contra a imensid?o de esferas pequenas enegrecidas.

  Obstruindo as suas vis?es com a forma??o energética que barra todos os disparos, a ruiva decaí do alto de um dos prédios laterais contra os esse grupo de Bealerins.

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  Um único mover do florete em declínio acompanha o seu pouso suave e veloz no centro deles, agachada.

  “Verkehrt: Fliessen…”

  Em um lapso avermelhado, o único corte da lamina se inverte em múltiplos rasgos simultaneos que se espalham pelos arredores como uma tempestade. No outro instante, todos os Pag?os já est?o desaparecendo em uma poeira escura, sem uma única gota de sangue.

  Acima deles, mais flechas passam como vultos pelo céu eliminando os inimigos por cima das casas. Mas logo em seguida, a voz do homem se alastra gravemente:

  一 N?o dá pra saber quantos s?o! Eles n?o param de aparecer!

  Com mais impulsos por cima das casas, ele se posiciona no alto em meio ao ar. O olhar se ilumina com a colora??o do seu Gewissen e uma única flecha de ponta oscilante é atirada em dire??o à um dos grupos.

  “Zienung: Teilen!”

  A flecha perfura o peito de um deles como uma agulha. No outro instante, todos os outros ao redor do atingido caem ao mesmo tempo, com diferentes buracos pelos corpos.

  一 N?o gaste for?a à toa, Ray! Se poupe o quanto puder!

  A ruiva complementa enquanto volta a se movimentar agilmente.

  O garoto acena com a cabe?a e parte tomando um rumo distinto, mas próximo aos dos adultos.

  “A gente precisa de um lugar para se esconder! Se n?o, vamos ser encurralados nesse ritmo!”

  Enquanto deixa a marca dos seus pés pelas superfícies de concreto, o vulto do rapaz se aproxima de um servo após o outro em seu caminho para eliminá-los.

  Do outro lado da rua, Carmen desintegra seus inimigos e, mais para frente, os disparos de Yurgen abatem os outros.

  一 Ei, garoto! Por aqui!

  A voz de um homem ressoa aos ouvidos de Raisel à esquerda. Ao direcionar o olhar, consegue observar um velho de cabelo repartido sem qualquer tra?o de corrup??o na janela de uma casa.

  一 V?! Carmen!

  De imediato, o menino os chama e consegue as suas aten??es.

  O arqueiro aponta o arco para cima. Ao puxar a corda bem carregada, solta um projétil de ponta grossa que voa para os céus em dire??o à lua gigantesca.

  Diferente dos disparos silenciosos, esse viaja causando um barulho agudo e estrondoso.

  A ruiva sequer acompanha a trajetória da flecha, ela apenas parte para próximo do menino.

  Por outro lado, o rapaz está contra a janela e obstruí a vis?o do senhor que acompanhava o projétil subir.

  Do alto, essa flecha explode em um brilho que ofusca boa parte da cidade em um clar?o prateado.

  Com a mesma distra??o usada na fuga de Balmund, os olhos hostis fisgados contra o projétil s?o cegados temporariamente.

  é possível ouvir os urros de dor dos Pag?os ao fundo.

  O trio passa pela janela que é lacrada e fechada com uma cortina. A casa n?o está um completo breu, pois há algumas lamparinas espalhadas pelas paredes.

  一 Quem é você?

  O fio do florete se p?e contra o pesco?o do desconhecido.

  一 E-Eu me chamo Rengil. S-Se acalme, por favor!

  Horrorizado, o senhor coloca as m?os para o alto enquanto elas tremem.

  一 Abaixe a arma. O símbolo do Grande Sol está aqui.

  Observando o local, Yurgen identifica a figura na parede, ainda completamente manchada por um tom mais escuro.

  “A balconista estava falando a verdade. O símbolo deve indicar o quanto falta para o amanhecer.”

  一 Por que decidiu nos ajudar, senhor?

  Raisel se aproxima após a ruiva abaixar a espada e come?ar a visualizar o local.

  一 Eu passei por vocês quando estavam saindo da Catedral. O Sacerdote me contou que eram estrangeiros… Vocês v?o desfazer o “Inferno” da cidade?

  O homem encara o menino com esperan?a.

  Em um respirar mais profundo, um suor escorre na lateral do rosto do arqueiro.

  一 Nós n?o–

  一 Vamos! Nós vamos.

  A voz do menino interrompe o mentor. As m?os sobem, já livres da espada das cinco estrelas, e pousam sobre os ombros de Rengil. O olhar dourado encara com ímpeto os olhos marrons do senhor.

  一 Finalmente…

  A fei??o surpresa dele ao ter os ombros agarrados, aos poucos, é distorcida. Os olhos lacrimejantes s?o ocultos com o baixar do rosto, as m?os se unem e os dedos do velho se entrela?am à frente do peito.

  Ao fundo, Carmen e Yurgen suspiram, mas no fim, sorriem.

  一 Você pode nos contar falando o que tá acontecendo aqui, no fim das contas, senhor Rengil.

  Com a m?o na cintura, a ruiva permanece segurando o florete com a destra, mas com a lamina abaixada.

  一 Tudo bem.

  O civil seca os olhos com as costas da m?o e levanta o olhar.

  Em alguns passos, ele busca um retrato artístico emoldurado dele com uma idosa, um casal mais novo e uma crian?a, na superfície de uma mesa no canto.

  Aproximando esse retrato do peitoral, o homem respira fundo.

  一 Eu tenho uma loja de roupas, mas minhas roupas s?o criativas, do tipo que chama aten??o… Um dos meus clientes é o próprio Odgard Truman, o filho mais novo da família que governa essa cidade.

  “Truman!”

  Os três arregalam os olhos ao se lembrar imediatamente do homem estranho na panificadora.

  一 Ele é… horrível, mas sempre tagarela quando está humilhando os outros…

  As sobrancelhas de Rengil se contraem em uma mistura de emo??es. Do ódio ao medo, a lembran?a de todos esses anos em que Odgard visitou a loja e o pisoteou, lhe causa um inc?modo gigantesco no peito. Porém, a arte próxima do cora??o, o aquece ao dar mais for?a ao desafortunado…

  一 Pelo o que ele contou, a família Truman est?o com os preparativos quase prontos para a “Erradica??o”... Eles… Eles v?o consumir para sempre todos que est?o vagando pelas ruas!

  Carmen e Raisel sentem um vácuo consumir os seus sentidos. Por outro lado, Yurgen ergue o arco.

  O tempo parece desacelerar à medida que uma silhueta se aproxima da janela, onde os olhos cinzentos est?o fixos.

  Do teto e das paredes, a casa come?a a trincar.

  O olhar do menino sobe.

  A fei??o da ruiva desliza para as costas de Yurgen.

  Quebrando a moradia do senhor, os Bealerins invadem com armas fluindo em Geloscht para os eliminar.

  Em um piscar de olhos, a percep??o se normaliza e esses Pag?os s?o erradicados com uma sequência de três rajadas opostas.

  O brilho dourado materializou a espada e subiu como uma parede de estocadas ao proteger o civil.

  O prateado engoliu os inimigos como uma explos?o de perfura??es, protegendo as costas da ruiva.

  Por fim, o carmesim rasgou como uma rede, a parede atrás do arqueiro.

  As súbitas eleva??es de poderes simplesmente varreu boa parte daquela moradia. O que resta s?o paredes incompletas, sem o símbolo de prote??o…

  一 Senhor Rengil!

  O menino tenta tocar o senhor, mas Carmen o puxa pelo capuz por trás.

  一 Lucrecia! A Catedral de Lucrecia… V?o para… lá… Alice… Di… na…

  A voz do homem come?a a desaparecer à medida que as rachaduras negras o consomem. Seu olhar, antes esperan?oso, se transforma em um vazio cuja consciência foi completamente apagada.

  Os punhos de Raisel se fecham.

  “O que os Truman querem com tanta desgra?a? é imperdoável… pensar que essas pessoas est?o há dez anos nesse Inferno…”

  一 Ray…

  A ruiva o chama, pronta para sair com uma fei??o descontente. Por outro lado, Yurgen está totalmente voltado para a dire??o do Castelo.

  O jovem respira fundo junto de uma piscada mais longa. O olhar se abre de modo calmo, mas a cor dourada em suas íris tremulam em raiva como uma labareda.

  一 Certo.

  Dessa forma, eles desaparecem como vultos.

  O que resta na casa de um homem que apenas queria estar com sua família novamente, é o vestígio do que ele já desejou.

  O retrato emoldurado sobre o ch?o é pisoteado pelos seus próprios passos conforme os olhos esbranqui?ados encaram a lua com fascínio.

  Em impuls?es sobre os telhados, o trio segue batalhando com os Bealerins, mas um som familiar ecoa do outro lado da cidade…

  Um sino, mas diferente da Catedral de Cícero. Um som áspero e pesado, ressonante por entre as sombras opacas.

  Com o barulho, a lamina da mulher segue a fatiar desconfiada de algo. N?o só ela, como Raisel e Yurgen ficam apreensivos.

  “Eles… est?o rindo?”

  Receoso, o menino passa a cortá-los sem relar o fio da espada ao emitir sua energia para tal.

  Conforme o sino se enfraquece, uma sequência de rugidos vem do céu. As nuvens se empilham uma nas outras com camadas e mais camadas de relampagos púrpuros.

  一 A NOITE… A NOITE COME?OU!~

  Entre as vozes risonhas, os trov?es se fortificam.

  Esses lacaios sequer oferecem resistência à medida em que os forasteiros se aproximam das muralhas do Castelo.

  Os olhos prateados do arqueiro brilham com for?a. A aten??o dele é atraída totalmente para o céu com o semblante aterrorizado.

  Em seguida, os outros dois sentem um arrepio fervoroso percorrem todos os seus corpos. Uma hostilidade e uma energia capaz de sufocar até os mais experientes, preenche o espa?o.

  一 Carmen! Rais–

  Yurgen direciona os olhares para eles mais à direita, com o menino estando mais distante.

  Contudo, o som de uma descarga elétrica explosiva o interrompe. O clar?o desse choque treme o solo com a colis?o, formando uma cratera no lugar em que eles estavam.

  Sem chance para pausas, a tempestade de relampagos roxos continua. De tamanho minúsculo em compara??o à massividade das trovoadas, Raisel permanece a se esquivar de cada rajada com extrema dificuldade.

  “Droga! Est?o nos separando!”

  O menino se esquiva indo em dire??o ao sul e, após alguns segundos nisso, se choca contra uma parede já estando do território do Castelo.

  Saindo dos destro?os, a m?o passa sobre a testa ensanguentada.

  “Que merda… Estou longe do Castelo principal no centro…”

  Observando os arredores, ele está em um pátio vazio e completamente escuro, somente com a enormidade da lua o encarando.

  “N?o vai adiantar usar o Zienung pra amplificar minha percep??o.”

  Caminhando nesse silêncio, sobe algumas poucas escadas e o barulho de chicotadas fica mais evidente.

  De perto, o rapaz vê estacas grandes com pessoas completamente despidas amarradas sobre elas. O maior problema é que essas pessoas mais próximas já est?o… mortas.

  O semblante de Raisel se torna inexpressivo ao visualizar com clareza a cena ao fundo.

  Um homem está chicoteando alguém ensanguentado com um semblante de satisfa??o.

  Os olhos dourados se lembram bem daquele rosto.

  “Odgard… Truman.”

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