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VOL 1 - CAP 6

  Inverno

  O treino com a espada de madeira foi o inferno que eu previ. Era pesada, lenta, e eu era derrubado pelo menos dez vezes antes de o almo?o ser anunciado. Eu odiava cada minuto daquele esfor?o

  Durante três semanas, eu apareci no quintal antes do sol nascer, com os bra?os doloridos do dia anterior. Eu cambaleava, gemia e, muitas vezes, cuspia terra após as rasteiras da minha m?e.

  — Postura! N?o use a for?a, use jeito!! — Minha m?e gritava, mas a verdade era que a espada de madeira era grande demais para o meu corpo. Eu estava em desvantagem física.

  No final da terceira semana, depois de eu ter sido atingido no peito pela vigésima vez, minha m?e finalmente baixou a guarda. Ela n?o parecia zangada, apenas cansada da minha teimosia ineficiente.

  — Você está lutando contra a arma, e n?o contra o inimigo, Kaelen — ela me repreendeu, com a voz mais suave. — Sua agilidade é sua maior for?a, mas essa arma n?o a permite.

  Finalmente ela percebeu, n?o aguentava mais essa espada, o jeito é parar de treinar esgrima e focar na magia.

  Lógico que n?o, ela me levou novamente ao quarto de armas, ela tirou um par de adagas de madeira, curtas, leves e que se encaixavam perfeitamente no meu punho.

  — Pegue. Vamos tentar isso. Seu foco precisa ser a velocidade e a proximidade. — disse minha m?e

  Eu n?o gostei da ideia de ter que lutar t?o perto da minha m?e, mas a adaga era infinitamente melhor. A adapta??o foi imediata. Em vez de tentar o bloqueio inútil e pesado da espada, eu podia usar a velocidade para desviar, esquivar e girar.

  O treino se transformou em um balé frenético e quase constante, onde o objetivo é evitar o ataque da minha m?e e anular o espa?o.

  Minha m?e me for?ava a lutar em curta distancia, quase corpo a corpo e sempre falava. — A adaga n?o tem alcance! Se você n?o pode tocar o inimigo, você n?o pode matá-lo! Reduza o espa?o! — Ela gritava.

  Aprendi a me mover como uma sombra, rastejando sob a guarda dela e me colando ao seu corpo para evitar o alcance de qualquer arma longa.

  Minha m?e martelou a filosofia da adaga — Ela n?o corta, ela perfura. — Eu pratiquei golpes rápidos e repetidos focados em pontos fracos em juntas, costelas e, principalmente, na garganta. Eu n?o tocava na minha m?e, eu sempre esfaqueava o ar, ela desviava muito rápido, n?o conseguia acompanhar a velocidade dela

  Minha m?e também me ensinou a usar o corpo todo. A adaga permitia que eu usasse o chute baixo e a rasteira para desequilibrar. Em seis meses, minha m?e n?o conseguia mais me derrubar com a mesma facilidade.

  Estou gostando muito de usar a Adaga, me sinto melhor. Eu n?o apenas me adaptei, eu melhorei muito. Eu me sentia leve, rápido e letal

  Minha m?e estava bastante orgulhosa de mim, falava bastante que eu era uma raridade e nunca tinha encontrado alguma crian?a assim na vida, também falava que eu iria virar um grande guerreiro quando crescesse.

  Cerca de um ano se passou

  Come?ou o inverno e estava come?ando a ficar frio, primeira vez que vi neve neste mundo, durante todos os anos que estou vivendo aqui, nunca nevou, n?o entendia muito sobre esse mundo, pra ser sincero n?o entendia nada.

  — Olha pai, neve! — disse olhando pela janela, estava come?ando a cair a neve, mas tinha um bolo de neve nos cantos da janela

  — Sim filho, está chegando o inverno — disse para mim colocando um casaco

  N?o entendi por que estava se agasalhando, n?o estava t?o frio, será que ele vai sair de casa?

  — Aonde você vai pai ? — disse curioso

  — Corta lenha — disse meu pai, continuou — Quer vim comigo ?

  — Sim pai — disse balan?ando a cabe?a em afirma??o

  — Se apresse ent?o — disse meu pai sentando

  Afirmei com a cabe?a e fui correndo para o meu quarto pegar um casaco, n?o vou me vestir muito, come?ou a nevar a pouco tempo, n?o está t?o frio.

  — Está vestindo o casaco porque Kaelen? — falou uma voz atrás de mim, pulei de susto com essa voz do nada, quando me virei, vi uma figura intimidadora na porta me observando

  Era só minha m?e

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  — Vou com o papai cortar lenha m?e — disse com apenas uma parte do corpo vestido no casaco

  — Nesse clima ? você é louco ? — disse minha m?e

  N?o entendendo, come?ou a nevar a pouco tempo, n?o estou entendendo essa preocupa??o toda. Sei que uma m?e tem bastante cuidado com o filho, mas n?o precisava dessa preocupa??o toda, ela n?o sabe, mas sou quase da idade dela, as aparências enganam n?o é mesmo

  — Ta nevando pouco m?e — disse e continuei — N?o se preocupe m?e, vai ficar tudo bem

  — Você n?o sabe como o inverno é Kaelen, o inverno sempre vem muito forte, aconselho você n?o ir — disse minha m?e

  Sempre vem muito forte? eu nunca vi nevar neste mundo e a primeira vez que neva, n?o estou entendendo

  — M?e quantas vezes nevou depois que nasci ? — falei

  — Aconteceu um inverno antes de você nascer, as neves pararam de cair um dia depois que você nasceu, desde ent?o, nunca mais nevou. — disse minha m?e

  Como isso pode acontecer ? esse mundo é muito estranho, na minha vida passada todo ano nevava em algumas partes do mundo, nesse mundo n?o teve inverno durante sete anos ?

  — Em quanto tempo dura para come?ar o inverno m?e? — falei

  — Normalmente é de sete em sete anos Kaelen — disse minha m?e

  Certo, ent?o de sete em sete anos neva, n?o duvido mais de nada nesse mundo, mas em quanto tempo o inverno acaba ?

  — M?e, quanto tempo dura o inverno ? — falei

  — N?o tem tempo certo Kaelen, mas o inverno costuma terminar em dois anos inteiros — disse minha m?e e continuou — E os primeiros dias costumam ser piores, por isso estou falando para você ficar.

  Melhor eu ficar em casa, n?o quero morrer t?o cedo e também, nem sei o que me espera, pode ter monstros ou animais selvagens

  — Kaelen ? se apresse menino — disse meu pai chegando no quarto

  — Pai acho que n?o vou mais — falei

  — Por que n?o filho ? — disse meu pai — Está com medo da neve ?

  N?o é da neve que tenho medo, eu tenho medo de morrer de novo, isso sim.

  — N?o pai — falei, fazendo beicinho

  — Ele n?o vai Theron — disse minha m?e

  — Por que n?o mulher ? — disse meu pai

  — Porque n?o — disse minha m?e

  Meu pai ficou sem entender, e bastante plausível falei que iria e depois que n?o iria, isso é bem chato

  — Eu vou pai — falei

  Minha m?e olhou para mim, se virou, e saiu do quarto, será que decepcionei ela ?

  Mas vai dar tudo certo, vou me agasalhar bem e vou com meu pai, meu pai sabe magia, ele deve ser muito forte.

  — Você já está pronto ? — disse meu pai

  — Só vou colocar uma cal?a pai — disse colocando a parte que faltava do casaco

  Coloquei a cal?a por cima da bermuda que estava e o casaco em cima da camisa, e estava pronto, meu pai me deu um par de luvas azuis, estava com calor dentro dessa armadura de roupas.

  Abri a porta e o ar gelado me atingiu com for?a, mas o casaco fez bem o seu trabalho.

  Saímos de casa, e a vis?o do quintal me surpreendeu. Onde antes era terra batida e grama, agora havia uma espessa camada branca que chegava até meu calcanhar. A neve caía densamente, n?o em flocos isolados, mas em uma cortina constante. Era impressionante, alguns minutos atrás n?o estava nevando tanto assim, olhando para a rua, n?o se via mais o caminho de terra, tudo estava coberto. A neve caindo criava uma neblina branca que limitava a vis?o.

  Meu pai murmurou algo inaudível e abriu a m?o direita. No meio da m?o dele , surgiu uma brasa intensa e flutuante – a mesma magia de fogo que tinha visto antes!!

  — Para nos esquentarmos Kaelen, fique perto — disse meu pai, em resposta, apenas balancei a cabe?a.

  A brasa n?o emitia nenhuma fuma?a, mas esquentava, era perfeito para aquele momento

  Caminhamos lentamente até algumas árvores, minha m?e estava certa a cada hora que passava, ficava mais frio, já estava come?ando a me tremer, acho que se n?o fosse o calor da brasa estaríamos mortos ou perdidos na neblina.

  Ao chegar perto das primeiras árvores, meu pai pegou alguns galhos e tocou neles com a brasa da magia, acendendo uma pequena fogueira. O trabalho de cortar lenha foi rápido para o meu pai. Ele segurava o machado com facilidade e o som do a?o se partindo na madeira era seco. Meu trabalho, por outro lado, era miserável. Meu pai me pediu para recolher os galhos caídos e as lascas menores. Eu mal conseguia ver onde pisava. Em pouco tempo, minhas luvas ficaram encharcadas e rígidas. O frio que eu ignorava antes come?ou a ficar impossível de ignorar.

  — Certo, isso dá para sobreviver o frio por mais dois dias no máximo. — falou meu pai com os bra?os cheios de madeira, tinha muita lenha, ele estava segurando lenha nos dois ombros, ao contrário de mim, estava levando o que conseguia n?o era muita coisa, mas já era algo

  Na volta para casa estava sendo tranquilo, percebi que o frio estava mais forte e olhei para o meu pai, ele n?o estava com a brasa nas m?os, já estava se tremendo de frio

  — N?o invente de congelar garoto — disse meu pai sorrindo, ele também estava se tremendo

  Respondi tremendo — Um friozinho desses n?o vai me derrubar, pai.

  Mesmo com a neblina conseguimos avistar nossa casa, a camada de neve estava maior do que antes, meu pé estava afundando mais isso me preocupava um pouco mesmo estando perto de casa.

  Enquanto caminhávamos, cambaleando sob o peso dos galhos e enfrentando o frio que vencia nossas roupas, eu entendi a li??o do dia.

  A adaga me dava velocidade, mas o mundo exterior n?o perdoa a fragilidade.

  O frio me congelava, e sem aquela magia do meu pai, eu teria sido engolido pela neblina ou pelo frio. Tenho certeza que meu pai conseguiria fazer esse trabalho sem a brasa mágica, eu sou fraco.

  Será que a magia acomoda as pessoas ? Se eu dominar a magia, irei ter a verdadeira seguran?a neste mundo incrível ?

  S?o dúvidas que podem custar minha vida, mas vou deixar o tempo responder.

  Chegamos em casa, a porta se fechou e o som do vento foi abafado. Minha m?e estava nos esperando, tinha algo no seu olhar, n?o era raiva, mas de alívio. Meu objetivo agora estava claro. Eu tinha dois anos apenas para aprender a ler e escrever, para me preparar para o mundo e para o livro de magia. N?o sei se conseguiria esperar os dez anos, tinha que aprender a magia o mais rápido possível para sobreviver nesse mundo. Aquele inverno me mostrou que a sobrevivência dependia da for?a e da magia, e um pouco de sagacidade.

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