Pe?as no Tabuleiro de Galrion
O ar do pátio ficou mais pesado só pela presen?a desse cara, meus sentidos est?o informando perigo n?o posso confiar nele, se a gente n?o fizer os desejos dele é capaz dele matar todos nós, provavelmente meu pai e nem minha m?e e forte o suficiente para derrotar esse cara, ele veio caminhando lentamente em nossas dire??es, diferente de mim, meus pais estavam tranquilos pareciam n?o ter medo desse cara.
Desviei meu olhar por um segundo e vi, aquela garota estranha estava com a coluna ereta e a cabe?a baixa fazendo sinal de respeito, eu deveria fazer o mesmo ?
— Theron, Quanto tempo amigo!! — falou Lorde Galrion em felicidades.
Ele estava bem na minha frente, ele tinha uma presen?a inexplicável, pelo visto eles se conhecem há muito tempo, estou sentindo um pressentimento estranho, o que é isso ?
Esse cara vai nos matar tenho que me antecipar, ele está perto e com a guarda baixa, talvez consiga achar uma abertura
— Tempo suficiente para eu quase n?o reconhecer esse seu rosto de camponês, Theron — brincou o Lorde, mas logo seu olhar se travou em mim. Eu ainda estava paralisado, segurei firme o cabo da adaga que estava na minha cintura.
— Ele é observador — murmurou Galrion, dando um passo na minha dire??o. — Olhe para ele, Theron. Ele n?o está deslumbrado com as torres ou com as estátuas. Ele está medindo a distancia entre o meu pesco?o e a m?o dele.
Senti um frio na espinha. Ele tinha me lido em segundos.
— Ele é igualzinho a m?e — respondeu meu pai rindo, colocando a m?o no meu ombro.
— Relaxe, pequeno — disse Galrion, e sua voz tinha um peso que parecia me pressionar contra o ch?o. — N?o sou seu inimigo.
Ele estendeu a m?o e bagun?ou meu cabelo de forma despojada, ele n?o era um perigo ent?o ? No final das contas, meus sentidos estavam totalmente errados, ele devia ser um cara legal.
— Seu herdeiro tem espírito, Theron. Isso é raro hoje em dia — Galrion se virou de costas para mim e come?ou a caminhar em dire??o à mans?o. — Venham. O jantar está servido, e temos muito o que discutir sobre a capital. — depois de um intervalo ele disse — Elara!
A garota, que estava em silêncio até ent?o, veio até nós. Para ser sincero eu nem lembrava dessa garota mas, ela era uma pessoa que n?o tinha interesse nenhum em conhecer, odeio gente metida.
— Sim, pai.
— Leve o jovem Kaelen ao banheiro para ele tomar um banho, ele está sujo por causa da viagem.
Elara me encarou.
Meus pais seguiram o Lorde Galrion, conversando sobre coisas que eu n?o conseguia mais ouvir. Ele me subestimou muito, será que sou t?o fraco assim ? Eu estava pronto para matar ele, e ele me tratou como um filhote de cachorro desorientado.
— Vai ficar aí parado admirando o ch?o ou vai me seguir? — A voz de Elara me trouxe de volta.
Ela n?o esperou a minha resposta. Virou-se e come?ou a caminhar com passos rápidos. Eu n?o tive escolha a n?o ser segui-la. Cruzamos o pátio e entramos por uma porta lateral da casa. Por dentro, a casa do Lorde Galrion era ainda maior. O teto era alto, com lustres que pareciam carregar pequenas estrelas. O ch?o de mármore refletia meu rosto sujo e cansado. Eu me senti como um borr?o de lama em uma pintura perfeita.
— Sabe — Elara disse, quebrando o silêncio sem olhar para trás —, o Vane disse que você viu mais sangue que eu. Mas olhando para você agora... parece que você só matou uma formiga.
Ela parou diante de uma porta dupla de madeira clara e a abriu, revelando um c?modo que me deixou sem palavras. Havia uma banheira enorme, com água que já soltava fuma?a. a limpeza desse lugar era outro mundo, o ch?o brilhava.
— Tome seu banho, Juditte vai trazer roupas novas e limpas para você. — N?o demore. Meu pai n?o gosta de esperar para o jantar, e se você fizer a gente se atrasar mais você vai arrumar problemas.
Ela se encostou na porta, cruzando os bra?os, me observando.
— O que foi? — perguntei
— Nada. Só estou tentando entender por que meu pai chamou você. Porque o que eu vejo é só um garoto que está com as m?os tremendo.
Olhei para minhas m?os. Ela tinha raz?o. Eu n?o estava tremendo de medo, era a adrenalina da quase luta que ainda n?o tinha saído do meu corpo.
Assim que Elara saiu e fechou a porta com um estalo seco, o silêncio do banheiro luxuoso me engoliu. O vapor da água quente da banheira subia estava em todo o c?modo criando uma névoa que emba?ava tudo.
Tirei minhas roupas sujas. — A única túnica que eu tinha, carregava o peso da morte daquele Goblin. Entrei na banheira e a água quente foi como um choque termico no início, seguido por um relaxamento profundo que quase me fez desmaiar.
Mergulhei a cabe?a. Debaixo d’água, o mundo lá fora n?o existia, queria viver aqui debaixo d’água.
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Será que existia uma magia que eu poderia respirar debaixo d’água? Acho difícil, na verdade impossível. Eu preciso entender como o poder funcionava nesse mundo.
Para come?ar a ser forte, tenho que pelo menos conseguir ficar ao lado daquele cara sem sentir uma sensa??o de estar sendo esmagado, provavelmente aqui vou conseguir ficar mais forte, mas n?o ao ponto de conseguir derrotar aquele cara, acho esse corpo muito fraco fisicamente, muito provavelmente por eu ser uma crian?a, quero crescer logo.
Ouvi batidas leves na porta, será que estou demorando muito no banheiro ?
— Jovem nobre? Sou Juditte. Trouxe suas vestes para o jantar — uma voz calma e madura ecoou pela névoa.
Jovem nobre?, esse título soa estranho nos meus ouvidos.
— Pode entrar — respondi, saindo da água e me enrolando em uma toalha grossa.
A mulher que entrou era jovem e tinha um rosto bondoso e uma roupa longa, algo parecido com uma roupa de criada doméstica, em outras palavras, empregada, ela tinha cabelos longos bagun?ados em formato de rabo de cavalo, ela veio segurando um par de roupas. Ela colocou as roupas sobre o banco de madeira
— Obrigado senhora Juditte — falei abaixando a cabe?a em um gesto de referência.
— Você é bem educado jovem nobre — disse Juditte com um sorriso no rosto
— Que isso Juditte, n?o é pra tanto — Suspirei, e continuei — Só n?o sou igual a nobres chatos por aí.
Juditte riu
— Você está falando da Elara ? — disse Juditte
Respondi essa pergunta com silêncio, acabei de chegar nesse lugar e n?o quero confus?o com nobres chatos, ainda mais com a filha daquele cara.
— A senhorita Elara pode ser um pouco... Arrogante e descuidada com as palavras — Juditte disse — Mas n?o leve a mal, Jovem mestre. Ela foi treinada para ser uma arma desde que deu os primeiros passos. Ela n?o entende direito o mundo.
— Certamente ela é um prodígio. — eu disse, relembrei de quando entrei no pátio, ela estava humilhando aquele menino.
— Sim, ela é. Mas até os prodígios precisam de amigos e cuidados, embora ela nunca vá admitir isso — Juditte me deu um sorriso encorajador. — Agora vamos. O Lorde e seu pai já est?o na mesa, o lorde Galrion odeia comida fria.
Me olhei no espelho, já n?o estava mais sujo agora estava agradável para um ambiente agradável. Juditte abriu a porta e ficou parada, andei até a porta e esperei, ela caminhou por um corredor com pouca ilumina??o, um cheiro de carne come?ou a surgir no ar. Estava seguindo Juditte pelo corredor até que vi uma luz vindo dobrando a esquerda do corredor, caminhamos até lá, logo vi um c?modo grande com uma mesa grande no meio dela, tinha vários quadros e um lustre enorme no teto iluminado por velas, tinha pessoas sentada nas cadeiras ao redor da mesa. Eram minha m?e, meu pai, o Lorde Galrion e a filha dele. Tinha apenas uma cadeira vazia ao lado da garota, provavelmente é o meu lugar. Caminhei lentamente a cadeira vazia e sentei, todos estavam preparados para comer, eu cheguei bem atrasado.
O silêncio na mesa era preenchido apenas pelo barulho dos talheres contra o prato. Eu sentia o olhar de Elara queimando a lateral do meu rosto dela parecia esperar que eu cometesse qualquer erro. Aproveitando um momento em que os adultos se serviam, ela se inclinou levemente em minha dire??o e sussurrou:
— Aprendeu a usar um garfo no caminho para cá ou a Juditte teve que te ensinar? — Falou com um tom provocante, com um sorriso de canto estranho.
Mantive minha postura, cortando a carne com uma precis?o. Respondi com um sarcasmo seco, sem desviar os olhos do meu prato:
— Algumas coisas s?o instintivas Elara. Como saber quando alguém está tentando ser irritante e falhando miseravelmente.
Ela cerrou os dentes, mas antes que pudesse retrucar, a voz profunda do Lorde Galrion preencheu o sal?o.
— O que está achando da comida, Kaelen? — perguntou ele, observando-me com uma curiosidade quase predatória. — é melhor que o lugar de onde vocês vieram?
Engoli o peda?o de carne devagar, escolhendo bem as palavras. Eu sabia que ele n?o estava apenas sendo educado, ele estava me testando.
— é impressionante, milorde — respondi, mantendo a voz calma e o tom respeitoso, mas firme e continuei — Está magnífica.
— Theron, você vai precisar de frieza para o que pode vir de agora em diante. O relatório do Capit?o Vane confirmou minhas piores suspeitas, os dem?nios e as ra?as menores est?o com comportamento estranho. Eles est?o atacando e saqueando todos e tudo o que veem pela frente — Disse Lorde Galrion, e continuou — Os Goblins que atacaram vocês s?o os Goblins de Manta Vermelha, ao que parece, eles estavam sob controle dos Dem?nios, o que é muito estranho.
O clima na mesa mudou instantaneamente. Minha m?e parou de comer e meu pai endureceu os ombros. Galrion continuou, olhando fixamente para o meu pai:
— Por que seria estranho Galrion ? — Disse meu pai.
— Normalmente essa ra?a de Goblins n?o obedecem quase ninguém, a n?o ser o Líder deles. — Disse Galrion.
— Será que est?o tramando algo ? — Perguntei interrompendo a conversa.
Depois de um breve momento de silêncio, o Lorde Galrion respondeu :
— N?o sabemos, por isso chamamos vocês. Quero que você junto com Elara fa?a miss?es para identificar o motivo dessa movimenta??o toda e salvar os vilarejos que est?o sob ataque.
Engoli seco.
Terei que matar novamente, eu n?o queria isso, comecei a tremer e a suar frio. N?o queria tirar uma vida novamente, mesmo que seja de um Dem?nio.
— E enquanto a mim Galrion ? — continuou meu pai. — Qual meu papel ?
— Theron, eu preciso de você, amigo. Preciso que lidere e treine meus soldados. Precisamos estar bem treinados para o perigo que está por vir. Quero que você ensine magia para meus soldados, nem que seja o básico. — Disse Lorde Galrion.
Novamente um silêncio veio à mesa, e novamente foi quebrada pelo Lorde Galrion.
— Kaelen, seus treinos com a Elara come?am amanh?.
Engoli seco, eu vou treinar com esse monstro ? Mal consegui acompanhar ela no treino hoje mais cedo.
Quando todos acabaram de comer, Juditte chegou a mesa e falou :
— Vamos, irei apresentar o quarto a vocês. — Disse Juditte com um sorriso no rosto.
Caminhamos pelo corredor e subimos escadas e chegamos em uma porta, com detalhes de drag?o e espadas na porta de madeira entalhada.
— Aqui é o quarto de vocês, descansem bem senhores. — Disse Juditte se curvando e logo em seguida saindo.
Meu pai abriu a porta pesada e o interior do quarto parecia um cenário de sonhos, algo que nem a arquitetura moderna da minha vida passada conseguiria replicar com tanta alma. O ch?o era coberto por tapetes que abafavam qualquer passo, e a cama com colchas bordadas, parecia grande o suficiente para acomodar três de mim, havia até uma lareira de pedra entalhada. Era um luxo quase ofensivo para uma época t?o bruta.
— Que quarto lindo. — Disse minha m?e com olhos cheios de felicidade.
— De fato Lyra. — Disse meu pai.
Me joguei naqueles travesseiros macios, minha m?e e meu pai estavam se preparando para dormir, minha mente n?o parava de repetir as palavras de Galrion: "miss?es", "identificar", "treinar". Eu sabia que, por trás daquele banquete e da cortesia, ele n?o tinha nos convidado, ele tinha nos recrutado como pe?as em um tabuleiro que eu mal come?ava a entender.
Depois de um tempo, meu pai e minha m?e se deitaram cada um ao meu lado, ninguém conversava nada, era bastante estranho, quase sempre escutava eles conversando antes de dormir. Será que n?o est?o conversando por que estou aqui ?
N?o sei, apenas sei que amanh? vou treinar com a Elara, se os treinos forem iguais aos treinos da minha m?e, vou me acostumar fácil.
Apenas n?o quero tirar mais nenhuma vida...

