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68. Portas que não se abrem

  O frio da manh? n?o veio de fora.

  Ribeiro percebeu isso ao inspirar. O ar estava comum; o corpo, n?o. Havia uma tens?o leve nos ombros, como se tivesse passado a noite sustentando algo que nunca chegou a tocar.

  Desmontou o abrigo sem pressa. Os movimentos eram automáticos, mas carregavam inten??o: cada gesto confirmava uma decis?o tomada antes do despertar. O eixo no peito manteve-se firme, mais definido do que na noite anterior. Aquilo chamou sua aten??o, n?o como surpresa, mas como constata??o.

  "Você sonhou."

  A voz de noxyt n?o se encaixou inteiramente dentro dele; ocupou o intervalo entre pensamento e gesto.

  Ribeiro ajustou a mochila antes de responder, apertando as tiras com precis?o excessiva.

  — Estava na casa. Na oficina.

  “N?o.”

  A resposta veio ponderada.

  “N?o foi sobre o que havia lá.”

  A trilha seguia em curvas que nada prometiam. A montanha continuava distante, mas o caminho perdera peso: n?o havia expectativa, apenas avan?o.

  — Aquela sala… meu pai sempre a manteve fechada.

  “Ele n?o a manteve por si mesmo.”

  Ribeiro desacelerou o passo.

  — Ent?o por quem?

  Houve uma pausa mais longa.

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  “Por algo que precisava de espa?o para n?o deformar.”

  O vento atravessou as copas e trouxe um ruído que lembrou madeira antiga cedendo. A associa??o foi imediata demais para ser coincidência.

  — Prote??o, ent?o?

  “Prote??o e sustenta??o.”

  A palavra sustenta??o n?o ecoou; assentou.

  Eles caminharam alguns metros em silêncio, até que Ribeiro franziu levemente o cenho, como quem percebe algo fora de alinhamento.

  — Névoa.

  A resposta veio atrasada, n?o por ausência, mas por foco.

  — “Oi.”

  A voz dela parecia mais dispersa que o normal, como se estivesse em vários lugares ao mesmo tempo.

  — Você tá… viva?

  Uma breve pausa. Algo se reorganizou no ar.

  — “Sim. Estudando pa garai.”

  Havia concentra??o ali, n?o ironia.

  “Esse profeta tem registros estranhos. Conhecimento comprimido demais para n?o ter custo.”

  Ribeiro soltou o ar pelo nariz, quase um meio sorriso.

  — Só queria saber se você ainda estava aí.

  — “Estou.”

  A resposta veio firme.

  — “Só n?o olhando.”

  O silêncio que seguiu foi confortável. Diferente do silêncio da oficina. Diferente do silêncio de antes.

  Ribeiro retomou o passo.

  — Você ficou sozinha por muito tempo.

  Disse, sem olhar para dentro.

  — “Tempo n?o funcionava direito.”

  A voz mudou de textura.

  — “Ficar n?o foi o problema.”

  Ele n?o perguntou mais. Algumas respostas exigem matura??o, n?o insistência.

  A trilha inclinou. Pedras soltas pediam aten??o. Ribeiro escorregou uma vez e se recomp?s sem artifício, sem compasso, sem buscar movimento externo. O eixo permaneceu estável.

  — Se aquela porta tivesse sido aberta…

  “Você n?o estaria aqui.”

  A resposta foi neutra.

  “Nem inteiro.”

  O sol rompeu as copas mais altas. A noite ficou definitivamente para trás.

  Ribeiro compreendeu, sem necessidade de nomear, que certas portas n?o guardam monstros. Guardam intervalos. Guardam o tempo necessário para que algo exista sem se quebrar ao nascer.

  “N?o confunda ausência com inexistência,”

  disse a voz, mais baixa agora.

  A Névoa n?o comentou. Estava ocupada demais aprendendo.

  Ribeiro seguiu. O passo encontrou a própria medida, nem contido, nem apressado. A montanha permanecia à frente, exigente, mas agora ele sabia: algumas estruturas só funcionam porque nunca foram abertas cedo demais.

  E isso, pela primeira vez, n?o soava como perda.

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