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61. O Reencontro do Mortal e da Tempestade

  O corredor fingia continuar.

  A água sólida aceitou o passo de Ribeiro, e só ent?o permitiu que houvesse ch?o.

  O ar ali era denso de memórias como se o próprio elemento tivesse absorvido lembran?as de quem afundou. Ribeiro sentiu cada uma delas tremulando junto ao corpo: a argila das m?os da m?e, o fio de corda nas m?os do pai, o rumor de uma maré que n?o volta.

  A névoa apertou-se ao redor dele, mais curiosa do que protetora.

  — "Estamos fora do alcance direto."

  A voz de Aqua vinha filtrada, calma.

  — "Daqui em diante, n?o é mais meu domínio."

  Ele avan?ou.

  O espa?o à sua frente abriu-se numa vastid?o escura pontuada por veias de luz azul-esverdeada. As veias n?o iluminavam; indicavam presen?a. Como cicatrizes de coisas muito antigas.

  Algo subiu dessas linhas.

  N?o veio como corpo. Veio como observa??o transformada em volume: um olho que n?o pertencia à forma humana, empalidecido por estratos de eras. Uma abertura no mundo que respirava devagar, com paciência.

  Ribeiro sentiu o pux?o primeiro como lembran?a: o calor das m?os da m?e moldando o vaso, a ordem dela... “Equilíbrio, Ribeiro” ...cravada em silêncio... Depois veio o eco mais duro: o som de metal e pele do pai enfrentando a maré; a promessa de ca?ar algo que o mar guardava.

  Uma dor antiga virou voz no peito.

  — Você… lembra de mim?

  A pergunta saiu pequena, mas o lugar onde caiu reverberou.

  O olho n?o riu. N?o respondeu com nome.

  Uma onda do campo passou por ele e registrou: contrato externo detectado. Proximidade: absoluta.

  A névoa empalideceu.

  — "Controle suas emo??es é recomendado."

  — Eu… eu tentei esquecer...

  Ribeiro murmurou.

  Ele engoliu. A memória veio como faca: a m?e sendo levada pelas nuvens trovejantes, o pai saindo para o mar e n?o voltando inteiro. O menino que correu no pátio, os pés encharcados de lama, o vaso seco sobre a roda.

  O ódio subiu, limpo.

  — VOCê SE LEMBRA DE MIM?

  Ele rugiu, a voz cortando o vazio como pedra.

  O som n?o era só vontade; era devolu??o de tudo que aquela criatura havia empurrado para o fundo.

  O olho girou devagar, como se lesse uma inscri??o que só ele podia traduzir.

  — "Registro: indivíduo identificado."

  A comunica??o n?o vinha em palavras humanas. Vinha em sentido: uma confirma??o sem afeto.

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  Ribeiro avan?ou mais um passo; a água sob seus pés aceitou o avan?o como se tivesse sido justificada.

  — VOCê SE LEMBRA DO MEU PAI?

  A pergunta cresceu, rompendo as camadas de silêncio

  — VOCê SE LEMBRA DA MINHA M?E, SUA BESTA INFERNAL?!

  O grito teve tanto de humano quanto de rito, invoca??o e acusa??o em uma só onda.

  O Leviathan n?o recuou.

  Seu “olho” plotou diferen?as: memórias como objetos. Ele n?o tinha rancor segundo a nossa medida; tinha catálogo.

  — "Memória: corrompida por água."

  A senten?a caiu como dado, n?o como desculpa.

  Ribeiro sentiu o ch?o estremecer sob o impacto daquela frieza. A raiva, antes quente, tornou-se algo mais antigo: responsabilidade para com um nome, com uma promessa. Ele sentiu o corpo inteiro responder, os pilares vibrando, um a um, como cordas sendo afinadas para um acorde que n?o conhecia.

  — Você... Você os-levou.

  Ribeiro falou, mais baixo, rosnando.

  — Você levou a minha m?e... A minha casa... O meu pai foi lá por causa de você. Você fechou o mundo sobre eles.

  A névoa sibilou, estudando.

  — "Registro: causalidade complexa."

  Aqua, atrás, falou com voz curta, quase prática:

  — "Ele n?o julga como você. Ele classifica."

  — Classifique ent?o estes fatos!

  Ribeiro cuspiu.

  — Me diga o que você viu quando arrastou minha m?e.

  O olho demorou.

  Dentro da veia de luz, algo oscilou, n?o simetria, mas reconhecimento funcional.

  — "Percep??o: passagem. Requisito de fun??o: respira??o."

  A fala n?o trouxe consolo. Trouxe lógica.

  Ribeiro sentiu o instante em que a sua fúria poderia virar arma ou ruína. O contrato pulsou no bolso: aquilo que ele deveria ca?ar estava ali, e mesmo assim, o que ele queria era um nome. Um reconhecimento. Um retorno que n?o limasse a perda, mas a enquadrasse em justi?a.

  — “O cora??o n?o é objeto, nem relíquia, nem conceito que uma mente finita consiga sustentar.”

  O abismo disse, n?o explicando, mas encerrando a pergunta.

  — “é ciclo.”

  — Ent?o me ensine a entender sua fun??o...

  Ribeiro rep?s, ferido e insistente.

  — Me diga por que você bate aí e n?o em outro lugar. Me diga como devolver o que você levou sem me tornar o que você é.

  O olho recuou menos do que um gesto, foi um ajuste de foco.

  — "Se entender… você apodrece."

  A resposta n?o foi misericórdia. Foi condi??o.

  A névoa pulsou, quase satisfeita.

  Ribeiro lembrou-se, por um sopro, do rosto da m?e, das m?os cobertas de argila, da paciência do pai. Uma imagem pequena, viva, que parecia insultar todo o resto. Essa lembran?a, t?o trivial que quase lhe dava vergonha, atravessou a veia de luz como uma moeda que muda registro.

  O Leviathan reagiu. N?o com fúria, nem com perd?o. Com fenomenologia: um pulso que n?o pediu palavra.

  — "Registro: homidions → singularidade → persistência."

  Aqua falou, dura, como conselho e como comando:

  — "N?o mate o que respira por nós. Observe. Aprenda. Entregue fun??o, n?o vingan?a."

  O mundo inteiro pareceu inclinar-se para ouvir.

  Ribeiro respirou, sentiu a esfera quente no bolso. A raiva gritava por a??o imediata; a memória sussurrava cuidado. Ele fechou a m?o como quem sela um juramento.

  — Eu n?o vim aqui para perdoar você.

  Murmurou, mais pra si do que pra criatura.

  — Vim pra entender. E se entender me pedir sangue, eu pago. Mas primeiro eu quero que você saiba: eu existo porque vocês me arrancaram do ch?o e me deixaram com essa conta.

  O olho ficou quieto, tempo de uma eternidade curta.

  — "Entendimento inicia com lembran?a correta."

  O abismo duplicou em voz.

  — "Mostre-me o que chamou o pre?o."

  Ribeiro deixou que a lembran?a mais simples crescesse: o vaso na roda, a m?o da m?e guiando o barro; o pai apontando um mergulho para longe, prometendo retorno. Ele n?o transformou dor em ódio performático. Deixou a memória ser o que era: prova.

  A veia de luz tocou seu pulso. Foi só contato. E foi tudo.

  — "Registro: vínculo estabelecido."

  O som transluziu em algo que, se fosse humano, poderia soar como permiss?o.

  A névoa exalou. Aqua recuou um passo.

  — "Vá."

  Disse Aqua, baixo.

  — "Volte com o cora??o intacto."

  Ribeiro ergueu o que restava dentro do peito, promessa, fúria, memória, e avan?ou.

  O Leviathan olhou, e n?o com fome.

  O olho aprendeu a ver, n?o para devorar, mas para reconhecer uma continuidade que também tinha pre?o.

  E Ribeiro, um passo de cada vez, deixou o corredor de luzes registrar sua marcha no fundo que, agora, sabia olhar de volta.

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