N?o por rejei??o, mas por incapacidade.
O asfalto aceita o peso, os prédios mantêm a sombra, o vento passa e o olha. O mundo continua competente em existir. Só n?o há encaixe.
Ribeiro anda.
Ou algo anda onde ele deveria estar.
A névoa o envolve
como resto,
como resto de decis?o.
N?o sustenta.
N?o guia.
N?o protege.
Permanece.
Permanece porque foi deixada.
Porque n?o recebeu ordem para ir embora.
Obediente
a um corpo que já n?o responde
a comandos antigos,
a verbos gastos,
a pedidos que exigem retorno.
Os ossos aparecem
n?o como ferida,
mas como confiss?o.
Sob o manto
que já n?o cumpre manto algum
há forma sem fun??o,
há peso sem impulso,
há presen?a sem permiss?o.
Pulso?
N?o.
Nem pulso,
nem pressa,
nem promessa.
Nem cora??o havia mais
para errar o ritmo,
nem carne para mentir continuidade.
Só o que sobra
quando decidir já n?o basta
e existir virou
um atraso educado no mundo.
A névoa fica.
N?o por cuidado.
Por hábito.
E isso
é tudo.
Atrás dele, Noxyt acompanha.
N?o como guarda.
Como diferen?a.
⊙
Ribeiro n?o vê.
N?o há escurid?o.
Escurid?o exigiria olhos.
O que existe é ausência de referência.
Nenhuma forma.
Nenhuma luz.
Nenhum contorno.
Ainda assim, algo se move.
Ele sabe quando o mundo muda de lugar
n?o porque percebe,
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mas porque o sentir se desloca,
como um móvel empurrado numa casa que já n?o tem paredes.
O mundo continua.
Continua se mexendo,
se ajustando,
se explicando para si mesmo.
Ele apenas deixou de receber imagens disso.
Noxyt vê.
Vê tudo.
Vê o que ainda existe
e o que só persiste por costume.
Vê os erros sendo contados,
as margens sendo revistas,
os registros co?ando onde n?o deveriam.
Ribeiro n?o precisa ver.
Por enquanto.
Enquanto um sente
e o outro registra,
isso basta
para que os dois
ainda estejam
aqui.
O som também n?o chega.
?
Passos n?o fazem ruído. O vento n?o sibila. Vozes humanas passam como movimentos sem consequência. O silêncio n?o é opressivo; é administrativo. Um corte limpo em um canal que deixou de ser prioritário.
Mas quando algo se aproxima demais, Ribeiro sente.
N?o como audi??o.
Como varia??o.
Um peso diferente no ar.
Uma press?o que n?o empurra, avisa.
Noxyt ajusta o passo quando isso acontece. Nunca toca. Nunca puxa. Apenas se coloca meio passo à frente, como quem resolve um problema antes que ele precise existir.
?
Ribeiro respira.
N?o porque precisa.
Porque o hábito ainda n?o foi removido.
O ar entra, sai, passa por estruturas que funcionam sem finalidade clara. N?o oxigena nada. N?o alimenta sistema algum. Ainda assim, o corpo insiste, e o corpo está errado, mas n?o foi informado disso.
O cora??o n?o bate.
Há um intervalo onde o batimento deveria estar.
O intervalo permanece aberto.
Noxyt percebe esse vazio como um campo estável. N?o é falha. é estado.
◎
O toque é o último sentido que sobrou.
N?o o toque ativo, o passivo.
Ribeiro n?o sente quando encosta algo.
Ele sente quando algo muda ao redor do contato.
O ch?o n?o é áspero, mas a press?o se altera.
A roupa n?o esquenta, mas a ausência de calor se redistribui.
O mundo n?o conversa com ele.
Mas reage.
Isso é suficiente para manter dire??o.
☉
Há memórias.
Elas n?o vêm em imagens.
Vêm como tens?es reconhecíveis.
Dor antiga n?o dói mais, mas deixa um formato.
Medo n?o pulsa, mas define limites.
A fobia da água ainda existe. N?o como panico, mas como recuo automático quando a umidade cresce demais. O corpo se afasta antes que a mente precise lembrar por quê.
Noxyt registra isso.
N?o intervém.
?
O papel ainda existe.
Dobrado, amassado, quase dissolvido pela névoa. Ribeiro n?o sabe onde está. N?o lembra quando o segurou pela última vez. Nem quando o conseguiu. Mas o papel permanece alinhado com ele, como se a própria matéria tivesse aprendido a n?o se perder daquele ponto.
Noxyt lê.
N?o com os olhos, com reconhecimento.
"Pare.
Isto n?o é for?a.
é dor tentando se passar por avan?o.
Você n?o está aguentando.
Está se perdendo.
N?o se puxe além do que ainda responde."
A frase n?o ecoa.
N?o conforta.
Mas ancora.
"Eu escrevi isso a um bom tempo... Nunca tive coragem em lhe entregar..."
??
O tempo passa errado.
Ribeiro n?o mede.
Ele acumula.
Dias n?o se distinguem. Manh?s e tardes s?o apenas varia??es térmicas que n?o alcan?am a pele. Ainda assim, o corpo se desloca, evita obstáculos, escolhe caminhos mais vazios.
Instinto?
N?o.
Resíduo de decis?o.
Noxyt calcula rotas simples. Menos pessoas. Menos interferência. N?o por prote??o, mas por economia de processo. Cada intera??o for?ada exigiria uma resposta. E Ribeiro ainda n?o consegue responder.
?
Algo observa.
N?o agora.
N?o aqui.
Mas a sensa??o existe como um erro de fundo, um registro pendente. N?o é amea?a imediata. é protocolo. Algo foi anotado. Algo foi pesado. Algo ainda aguarda o ponto certo de execu??o.
Ribeiro n?o entende isso.
Noxyt entende.
E, pela primeira vez desde a separa??o incompleta, n?o compartilha.
?
A cidade segue.
Uma crian?a passa correndo e n?o vê. Um adulto esbarra e sente apenas um arrepio estranho, como quando se atravessa um lugar onde algo deveria ter acontecido, mas n?o aconteceu.
Ribeiro continua andando.
Cada passo é uma confirma??o silenciosa:
ele ainda ocupa espa?o.
Mesmo sem nome funcional.
Mesmo sem retorno sensorial completo.
Mesmo sem status vivo reconhecido.
??
à noite, se é que ainda se chama assim, a névoa se adensa.
N?o por escolha.
Por alinhamento.
Ribeiro para.
N?o porque decidiu.
Porque algo nele chegou ao limite do avan?ar sem compreens?o.
O corpo fica imóvel. A respira??o mantém o ritual inútil. O vazio cardíaco segue aberto.
Noxyt se posiciona à frente.
Por um instante, o espelho se inclina. N?o para refletir, mas para medir. O estado. O custo. O tempo restante até que alguém venha cobrar o desvio.
Ele n?o fala.
Ainda n?o.
Mas, pela primeira vez desde que Ribeiro perdeu vis?o, audi??o e voz, algo novo acontece:
O sentir muda de forma.
N?o é emo??o.
N?o é pensamento.
é uma dire??o interna que n?o existia antes.
Ribeiro n?o entende.
Mas aceita.
E isso, só isso, mantém o mundo inteiro estável por mais uma noite.
??
Em algum lugar fora do alcance sensorial, registros continuam sendo atualizados.
Mas aqui, agora, na rua vazia, um corpo que n?o deveria andar ainda anda.
E enquanto houver sentir suficiente para dar um passo, o processo n?o pode ser encerrado.
Ainda n?o.

