A trilha até uma cachoeira era silenciosa, sombreada por árvores altas que se inclinavam como se comentassem baixinho sobre o estado deplorável de Ribeiro.
Cada passo era um gemido dos músculos.
A névoa, atrás dele, flutuava num ritmo pregui?oso, ocasionalmente soltando estalinhos elétricos, resquícios da descarga que ainda estava presa nos ossos dele.
O som da água veio primeiro, um murmúrio constante que se transformava em rugido conforme ele avan?ava pelas pedras.
Ribeiro quase sorriu.
— Finalmente…
Sangue seco no rosto. Poeira grudada na pele. Cheiro de coliseu impregnado até na alma.
Era humilhante. Era cansativo. Era só mais um dia.
A cachoeira surgiu entre as árvores: larga, cristalina, despencando sobre uma piscina natural profunda. O ar ali era frio o suficiente pra que a bruma dan?asse solta.
Nenhum ser vivo por perto.
— Gra?as aos deuses
murmurou.
A névoa deslizou ao lado da cabe?a dele, em formato vagamente humanoide só pra irritar.
— “Ribeiro-chan indo tomar banho sozinho… num lugar isolado… nu… que safado :3”
Stolen from Royal Road, this story should be reported if encountered on Amazon.
— Cala a boca, por favor, já basta o Inseto... ;-;
— “T? só deixando o clima mais leve… depois de você quebrar três ossos que n?o eram seus.”
Ele tirou o manto devagar, n?o por estilo, mas porque tudo doía, e sentiu o ar frio bater nas marcas escuras que a eletricidade havia deixado. As veias ao longo da costela ainda brilhavam num tom azul fraco.
— “Se pular assim, vai ter cho— HHHH—”
Ribeiro pulou.
A água gelada estourou contra o corpo, expulsando qualquer resquício de adrenalina. Ele afundou até sumir, deixando a mente esvaziar junto com o ar.
Quando emergiu, cabelos colados no rosto, o mundo parecia… suportável.
Por alguns segundos.
— Porra… isso é vida…
A névoa boiou ao lado dele, fazendo pequenas ondas.
— “Você sabe que tá completamente vulnerável agora, né? Se aparecer um bicho, você morre pelado. Vai ser engra?ado. Humilhante. Mas engra?ado.”
— Se você estragar cinco minutos do meu banho, eu te guardo num frasco por uma semana.
A névoa congelou.
Literalmente parou no ar.
— “…entendi.”
Silêncio.
Só o barulho da queda d’água batendo nas pedras.
Ribeiro deixou o corpo relaxar, afundando até os ombros. A tens?o foi deslizando pra longe, o cansa?o, a poeira, a dor, a luta, os bêbados idiotas… tudo indo embora com a correnteza.
Depois de um tempo, abriu os olhos.
— Pronto. Já deu. Posso voltar.
A névoa se aproximou devagar, agora absurdamente comportada.
— “Posso falar de novo?”
— Pode.
— “Seu cabelo ficou fofo.”
Ribeiro enfiou o rosto na água como se quisesse morrer ali mesmo.
— …eu mere?o isso…
A névoa fez um som que parecia um riso abafado.
Quando ele saiu da água, secando o rosto com as m?os, a névoa pairou acima do ombro dele.
— “Você percebe que n?o dorme há dois dias, né? E comida…? Hm… zero. Absolutamente zero. Você tá virando uma pessoa 100% fuma?a e teimosia, que a grande m?e lhe ajude garoto :/...”
Ribeiro suspirou.
— Eu passo no refeitório do coliseu… depois.
— “Você disse isso ontem.”
— Eu disse?
— “SIM.”
— Nah...
Juntou as roupas. Estalou o pesco?o. Respirou fundo.
Depois come?ou a caminhar de volta para o Coliseu, exausto, fedendo menos, e com a névoa reclamando o caminho inteiro.

