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Interlúdio II: O banho que nunca vem fácil

  A trilha até uma cachoeira era silenciosa, sombreada por árvores altas que se inclinavam como se comentassem baixinho sobre o estado deplorável de Ribeiro.

  Cada passo era um gemido dos músculos.

  A névoa, atrás dele, flutuava num ritmo pregui?oso, ocasionalmente soltando estalinhos elétricos, resquícios da descarga que ainda estava presa nos ossos dele.

  O som da água veio primeiro, um murmúrio constante que se transformava em rugido conforme ele avan?ava pelas pedras.

  Ribeiro quase sorriu.

  — Finalmente…

  Sangue seco no rosto. Poeira grudada na pele. Cheiro de coliseu impregnado até na alma.

  Era humilhante. Era cansativo. Era só mais um dia.

  A cachoeira surgiu entre as árvores: larga, cristalina, despencando sobre uma piscina natural profunda. O ar ali era frio o suficiente pra que a bruma dan?asse solta.

  Nenhum ser vivo por perto.

  — Gra?as aos deuses

  murmurou.

  A névoa deslizou ao lado da cabe?a dele, em formato vagamente humanoide só pra irritar.

  — “Ribeiro-chan indo tomar banho sozinho… num lugar isolado… nu… que safado :3”

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  — Cala a boca, por favor, já basta o Inseto... ;-;

  — “T? só deixando o clima mais leve… depois de você quebrar três ossos que n?o eram seus.”

  Ele tirou o manto devagar, n?o por estilo, mas porque tudo doía, e sentiu o ar frio bater nas marcas escuras que a eletricidade havia deixado. As veias ao longo da costela ainda brilhavam num tom azul fraco.

  — “Se pular assim, vai ter cho— HHHH—”

  Ribeiro pulou.

  A água gelada estourou contra o corpo, expulsando qualquer resquício de adrenalina. Ele afundou até sumir, deixando a mente esvaziar junto com o ar.

  Quando emergiu, cabelos colados no rosto, o mundo parecia… suportável.

  Por alguns segundos.

  — Porra… isso é vida…

  A névoa boiou ao lado dele, fazendo pequenas ondas.

  — “Você sabe que tá completamente vulnerável agora, né? Se aparecer um bicho, você morre pelado. Vai ser engra?ado. Humilhante. Mas engra?ado.”

  — Se você estragar cinco minutos do meu banho, eu te guardo num frasco por uma semana.

  A névoa congelou.

  Literalmente parou no ar.

  — “…entendi.”

  Silêncio.

  Só o barulho da queda d’água batendo nas pedras.

  Ribeiro deixou o corpo relaxar, afundando até os ombros. A tens?o foi deslizando pra longe, o cansa?o, a poeira, a dor, a luta, os bêbados idiotas… tudo indo embora com a correnteza.

  Depois de um tempo, abriu os olhos.

  — Pronto. Já deu. Posso voltar.

  A névoa se aproximou devagar, agora absurdamente comportada.

  — “Posso falar de novo?”

  — Pode.

  — “Seu cabelo ficou fofo.”

  Ribeiro enfiou o rosto na água como se quisesse morrer ali mesmo.

  — …eu mere?o isso…

  A névoa fez um som que parecia um riso abafado.

  Quando ele saiu da água, secando o rosto com as m?os, a névoa pairou acima do ombro dele.

  — “Você percebe que n?o dorme há dois dias, né? E comida…? Hm… zero. Absolutamente zero. Você tá virando uma pessoa 100% fuma?a e teimosia, que a grande m?e lhe ajude garoto :/...”

  Ribeiro suspirou.

  — Eu passo no refeitório do coliseu… depois.

  — “Você disse isso ontem.”

  — Eu disse?

  — “SIM.”

  — Nah...

  Juntou as roupas. Estalou o pesco?o. Respirou fundo.

  Depois come?ou a caminhar de volta para o Coliseu, exausto, fedendo menos, e com a névoa reclamando o caminho inteiro.

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