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38. Éter

  O canto que vinha do sul cresceu até se transformar num ruído de metal afinado, um tambor que atravessava o espa?o e fazia o selo na palma de Ribeiro vibrar como se alguém dedilhasse um fio de ferro quente. Ele sentiu um arrepio que n?o era medo: era convite. Algo, em algum lugar que n?o era o deserto, puxava o fio que ligava o Au àquilo que ainda n?o sabia nomear.

  Guardou a escama como quem guarda uma promessa roubada. O inseto em seu peito riu com uma cadência nova, menos malícia, mais expectativa. O selo sob o manto bateu outra vez, curto, e a pele dele notou. A areia ao redor pareceu prender a respira??o.

  N?o era necessário arrumar malas. Só seguir. Quem n?o ouvia o chamado n?o entendia que o mundo já fazia o movimento. A atmosfera inteira curvou-se como se encolhesse; a luz no céu mudou de estalo para silêncio denso. Respirou, conteve o ar, acionou a dobra do vento, n?o como antes, por brincadeira, mas como quem abre uma porta com a chave certa.

  Uma dobra pequena. Um espa?o de três saltos. Areia saltou, girou e desapareceu como se tivesse entrado numa fresta do mundo. Comprimiu o movimento num compasso de respira??o. Fez de novo. A sensa??o n?o era de viagem, mas de costura: o tecido do espa?o puxava e costurava um ponto para outro. A primeira vez foi náusea. A segunda, controle.

  Quando os pés tocaram solo que n?o era do deserto, soube que havia cruzado mais que distancias: havia atravessado uma linha entre o mundo que conhecia e o que estava vindo.

  O ar cheirava a oz?nio e metal aquecido, como se as nuvens tivessem sido moídas e vomitadas sobre a cidade. Ao longe, estruturas colossais rasgavam o céu, arranha-céus de pedra e osso, pontes que n?o obedeciam à geografia, torres que espiralavam como dentes. O ruído metálico tornou-se coro: gritos, trombetas, zumbido de máquinas e criaturas.

  Havia fogo no ar, mas n?o do jeito do deserto. Era fogo que vinha de baixo, do subsolo, chamas que se alimentavam de cidades partidas e de alguma fímbria energética que rezava em segredo. As estrelas estavam distorcidas: alguns pontos brilhavam muito mais perto, outros pareciam rajadas, deslocamentos de constela??o. O mundo respirava errado.

  No centro daquele caos, como uma ferida risonha, erguia-se o Coliseu.

  N?o era um coliseu do passado, com pedra e público acotovelado: era um órg?o vivo, um anel mecanico de letras e a?o, com estruturas que abriam e fechavam como bocas. Plataformas circulavam, grades deslizavam, e sobre tudo pairava uma arquibancada que se iluminava com brasas humanas, nobres, mercadores, sacerdotes, invasores. Havia bandeiras, sim, mas havia algo mais: painéis flutuantes onde se anunciavam apostas, recados de sangue e ofertas de gra?a, propostas de escravid?o e troféus de carne. No topo, um mastro ostentava algo que n?o precisava nome: correntes, sinos e um velho bras?o que lembrava império e puni??o.

  à primeira vista, parecia um espetáculo. Ao olhar de perto, era um tribunal do mundo.

  A multid?o n?o vinha só de uma ra?a. Anjos de armadura quebradi?a, com asas que rangiam como metal velho, pairavam em grupos. Dem?nios com olhos de mercúrio perambulavam, alguns vendendo remédios proibidos, outros observando como colecionadores de sombras. Criaturas saídas de fendas no mar, grossas como troncos de árvore, patinavam sobre a lama. Humanos e coisas que se fingiam humanos apertavam-se nas arquibancadas, olhos frios. No ar, mercenários trocavam contratos com um piscar; crian?as com marcas de guerra vendiam bilhetes e preces.

  O que chamava aten??o n?o era somente a violência: era a precis?o da violência. O Coliseu havia sido convocado por quem tinha nome e dinheiro, e num momento em que as for?as que rasgavam o céu e a terra precisavam de distra??o, de espetáculo, de um voto de ordem.

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  Ribeiro sentiu o selo pulsar e o inseto cutucar. Sua presen?a chamava aten??o, n?o por acaso, mas por design. Alguém no alto do Coliseu anunciara, horas antes, que abriria portais para os que tivessem marcas que respondessem ao eter. Quem tivesse tais marcas ganharia espa?o no torneio. Quem vencesse teria sua própria escolha: vida e troféu, riquezas, ou um favor de alto pre?o.

  Os nobres decidiram fazer do caos um pente, e do sangue, entretenimento.

  Ele caminhou. N?o havia estrada, apenas rastros que desapareciam sob seus próprios passos, enquanto criaturas recuavam ao sentir a vibra??o do selo. Pessoas o encaravam rápido, medindo o corpo estranho, à distancia, um humano comum; de perto, um manto de fuma?a multicolorida o envolvia, ondulando como se tivesse vida própria, escondendo sua alma e, ao mesmo tempo, revelando algo que soava como promessa.

  Sussurros percorreram a multid?o: “Marcado… selo… o que é aquilo? Um monstro? Eles n?o estavam… extintos?”

  Pragas e ca?adores surgiram, cabos de a?o prontos, farejando perigo. Ribeiro notou um homem com cicatrizes em cruz no rosto, que lhe lan?ou um aceno quase imperceptível. Reconhecimento. Aviso.

  “N?o entre com a cara de quem veio procurar ouro”, murmurou o inseto. “Entre com a cara de quem está aqui pra tirar sangue.”

  Os portais de convoca??o eram circulares, de tinta preta e espessa: visk, e no centro de cada um havia um pedestal onde se depositava um sinal: uma pe?a de metal, uma inscri??o, ou em casos raros, uma escama. Um preposto do Coliseu circulava, reunindo marcas por colecionadores. Ele parou ao vê-lo, um homem alto, com olhos de cinza morta e roupas que cheiravam a ritual.

  “Você tem selo.” A voz foi quase formal. “O registro diz que quem possui eter responde. O torneio será amanh?. Registro? Entrada? Você entende as regras?”

  Ribeiro olhou o homem, sentindo a resposta do selo. N?o sabia as regras, n?o sabia como se registrava. Sabia apenas que havia seguido um chamado que o puxara como uma corda.

  “Eu… vim,” disse. A voz saiu seca, pequena diante do burburinho.

  “ótimo.” O homem sorriu como quem fecha contrato. “Inscrevo você. Prepare-se. O Coliseu come às manh?s. Quem n?o comparece no dia e hora marcados vê sua inscri??o cancelada e parte de sua recompensa reduzida. Quem desiste na arena pode ser doado ao… público.”

  O homem esticou a m?o. Um peda?o de metal caiu na palma de Ribeiro, um selo de inscri??o, com o bras?o do Coliseu. Ao tocá-lo, a palma dele ardeu. O selo sob o manto respondeu com um vibrato novo, como se um outro anseio se somasse ao primeiro.

  “Por que eu?” perguntou Ribeiro, mesmo sabendo que n?o obteria resposta.

  “Porque você responde ao eter,” replicou o homem. “Porque o mundo gosta de testar aqueles que andam perto do desconhecido. Porque todo espetáculo nasce de algo real e de alguém que n?o deveria existir neste ponto. E porque, principalmente, a alta corte quer rir do perigo enquanto o mundo arde.”

  As palavras foram cortantes, mas o tom do homem n?o era cruel. Ele olhava para a estrutura como quem olha pra uma oferta vantajosa.

  Ribeiro guardou a ficha. O inseto riu, quase orgulhoso. “Você sempre tem gosto ruim para festas,” murmurou.

  Passou a noite em um beco improvisado, o tipo de abrigo que cheirava a vapor e ferro. Dormiu pouco. Quando fechava os olhos, via o selo pulsar. Quando acordava, via a multid?o já reunida. A cidade, se aquilo podia ser chamada de cidade, parecia um organismo que se alimentava da expectativa. Em tavernas, anúncios de apostas; em becos, mercadores de veneno; nas portas dos nobres, convites para ver o que restava do mundo.

  No amanhecer, a convoca??o fez soar sinos de ferro. Raios cortaram o céu. A face do Coliseu abriu suas bocas e um anúncio ecoou como se as pedras falassem:

  “Que comece o Torneio do Grande Pacto! Primeira Ronda: Exibi??o Geral! Entrada dos Marcados!!!"

  Havia uma ordem. Havia regras. Havia o cheiro de metal e a promessa de dor. Ribeiro foi chamado por um dos port?es, junto a outros marcados, alguns com cicatrizes, outros com olhos que pareciam n?o dizer nada. Foram empurrados para o túnel que levava à arena. O ch?o tremeu. Luzes como laminas subiram, e a multid?o se acalmou num silêncio que fisgava o ar.

  Ribeiro respirou fundo. O Coliseu n?o tinha come?ado a lutar ainda. Mas ele já sentia que, quando come?asse, n?o haveria volta.

  O inseto no peito sussurrou, grave: “Prepare-se. O que vem agora é espetáculo… e todos os olhos desta cidade aos peda?os est?o sobre você.”

  — Fim do Capítulo 1 —

  Próximo lan?amento (Capítulo de luta / Coliseu – “O Torneio: Primeira Luta”): 26/11/2025

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