O cheiro metálico da fenda ainda colava na garganta de Shade quando o ambiente... mudou.
N?o deveria mudar t?o rápido. Mas mudou.
O ar tornou-se doce, como se alguém tivesse borrifado perfume de flores que n?o existiam no mundo de fora. A luz dourada filtrava-se entre árvores de plumas reluzentes, dan?ando sobre um lago que refletia constela??es que ela n?o reconhecia. Parecia que a própria masmorra tinha resolvido vestir-se de festa só para enganar os desavisados.
Shade ficou parada, desconfiada.
— …Isso aqui deveria ser o inferno? Por que parece um jardim de conto de fadas?
Uma das criaturinhas saiu das moitas. Tinha corpo felpudo, orelhas pontudas e um par de antenas que piscavam cores suaves. Ela olhou para Shade, deu dois pulinhos e pousou uma flor dourada aos pés dela.
Shade arqueou a sobrancelha e abaixou-se, pegando a flor.
— Valeu, bichinho. Prometo n?o esmagar ninguém.
Outras criaturinhas se aproximaram, curiosas, rodeando-a. Cantavam, ou pelo menos algo parecido com canto, um som agudo e harmonioso que fazia o ar vibrar. Por um momento, Shade esqueceu tudo: a fome, a dor, o medo. Ali, parecia um sonho que ela nunca tivera direito de ter.
Até que algo diferente brilhou sob a árvore mais próxima.
Uma grande árvore de galhos prateados estendia-se sobre o lago; seus frutos lembravam núcleos brilhantes, meio cobre, meio bronze. E entre os galhos, como se estivesse ali à espera de dedos curiosos, haviam plumas de penas douradas, finas, perfeitas, cada uma membranosa como se guardasse música dentro.
— Hm... brilhante...
Shade deu um passo. As criaturinhas pararam de cantar. Deu outro passo. Elas recuaram, os olhos piscando, azul, depois vermelho, e o ar ficou pesado, vibra??o pronta.
— Ei, calma, calma... só vou pegar... uma pequena lembrancinha.
murmurou, estendendo a m?o.
Os dedos tocaram a pena.
E o mundo explodiu.
O som mudou como se o próprio ch?o gritasse. As criaturinhas fofas se distorceram: pelagens alongaram-se em sombras, olhos sumiram, transformando-se em figuras negras e retorcidas. Um coro de vozes varou a cabe?a de Shade, n?o som vindo do exterior, mas de dentro da sua mente.
— "Invasora..."
sussurrou algo que n?o era de ninguém e era de todos.
— "O ouro... n?o é teu."
O ch?o tremeu. As árvores dobraram os galhos como bra?os. As águas do lago subiram em redemoinhos, refletindo mil rostos sem olhos.
Shade cambaleou, cobrindo os ouvidos; fazia esfor?o para distinguir a voz externa da que ecoava no seu interior.
— Tá, Tá! Foi mal! EU DEVOLVO!
gritou, jogando a pena no ch?o como se pudesse desatar o nó de um feiti?o.
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Mas as vozes n?o pararam.
— "Pecado n?o devolvido... é lembrado..."
As criaturas avan?aram, arrastando-se e gritando. O som delas era um coro distorcido de lamentos que penetrava a pele e dobrava a vontade. Shade correu, trope?ando nas raízes que se moviam como serpentes prateadas. Pela primeira vez desde que entrou na Lan?a, a cidade, as filas, a sorte que devolvia m?es: tudo parecia uma memória distante, t?o real e frágil quanto a flor que havia segurado minutos antes.
— Por que TUDO que eu toco quer me matar?!
ela gritou para o vazio.
Uma risada ecoou, clara e sem rosto, dentro da sua cabe?a.
— "Porque tudo que vive... teme o que brilha demais."
Shade n?o sabia explicar por que aquela voz costumava segui-la. N?o sabia se era maldi??o, bên??o, ou apenas consequência do mundo dobrado em si mesmo. Só sabia que desde as ruas sem nome até aqui ela andara com uma presen?a pegajosa nos pensamentos, opini?o alheia sem corpo, crítica sem forma.
Ela correu sem ousar olhar para trás.
O paraíso dourado ruía como tinta descascando de uma parede velha, revelando o pesadelo que sempre estivera ali, apenas coberto por luz demais. As árvores, antes suaves como seda, abriam fendas profundas que sangravam sombras; aquilo que soara como canto virou laminas de som atravessando o ar.
A masmorra... T?ooo generosa... T?ooo celestial em sua primeira impress?o, finalmente mostrava o que era. Um organismo faminto. Um éden embrulhado em mentira. Cada passo que Shade dava, ela sentia o ch?o reagir, ajustando-se, estudando-a, como se o lugar respirasse na cadência da sua fuga.
Shade desviou de um galho que tentou agarrá-la. Escorregou na espuma que o lago cuspira, sentiu a água fria lamber os joelhos. Uma das criaturas, ou o que restava dela, lan?ou um som que se parecia com um nome. Shade mal teve tempo de registrar. A fuga era tudo.
Ela só correu.
Os galhos golpeavam o ar com precis?o de predador. As raízes puxavam os pés dela como se quisessem persuadi-la a ficar. O ferro do mundo parecia virar goela pronta para engolir.
Ela n?o olhou para trás. N?o porque ignorasse a dor do que deixava, mas porque sabia que olhar era convite, e alguns convites, naquela Lan?a, eram cartas seladas com destino.
Quando finalmente saltou por uma rocha que soltou faíscas, o som diminuiu. A fenda atrás dela se selou, engolida por sombras que se reacomodavam como um tecido ferido. Shade caiu de joelhos no ch?o firme, pedra lisa, fria, muito diferente da floresta ilusória, e respirou com o peito rasgado, tentando compreender o que quase a devorara.
"Porque tudo que vive… teme o que brilha demais."
A frase rodou pela cabe?a, nítida demais para ser apenas lembran?a. Como se tivesse vindo de alguém que respirava dentro dela.
Ela recolheu a m?o, suja de seiva dourada que cheirava a ferro, e encarou a pena caída ao lado. Ainda intacta, mas o brilho murcho, apagado, como se, ao ser rejeitada, tivesse encolhido.
Só ent?o percebeu onde estava.
à frente, um corredor de pedra se estendia, iluminado por uma luz que n?o era a da ilus?o anterior. N?o era quente, nem enganadora. Era estável. Antiga. Real.
No fim do corredor, emergindo da escurid?o, erguiam-se as colunas do templo.
Shade limpou a lama do rosto com o dorso da m?o e soltou um sorriso torto, quase sem humor.
— F-O-D-A-S-E!
riu alto, sozinha.
— Se esse lugar quer guardar segredo, que guarde. Eu n?o vim aqui pra colecionar penas.
Mas algo na árvore onde a pena repousara arranhou sua memória. Histórias sussurradas nos becos da cidade… lendas sobre as árvores-Guardi?s, sobre objetos que lembravam demais e, por isso, cobravam pre?o. Coisas que brilhavam com memórias de vidas que n?o eram suas, e que sempre exigiam troco de quem ousasse tocá-las.
Shade pensou na Lan?a quando ela aparecera no horizonte, a promessa e a ferida, e na voz que sempre lhe perguntava por que ela queria chegar lá. Respostas fáceis n?o existiam; havia só uma mistura de necessidade e curiosidade, fome e rancor. Riscos e ouro.
Ela se recomp?s. A cidade lá fora podia esperar. Talvez houvesse mais capas de engano: jardins que se tornavam cemitérios, memórias que se tornavam armas. E, no entanto, ali dentro havia pistas, estilha?os de verdade que a Lan?a guardava como moedas.
Shade deu as costas à pena e retomou o caminho pelo interior da fenda, onde o ar ainda carregava notas doces e metálicas, como uma lembran?a avisando que nada ali era simples. As vozes dentro da cabe?a dela aquietaram-se, por ora, como se a masmorra estivesse satisfeita com a li??o dada.
Mas Shade sabia que a Lan?a n?o terminara suas li??es. Só havia come?ado a cobrar.
Fim do capítulo 2.

