16/09/2020 — Aeroporto da Cidade do México
O aeroporto estava barulhento demais para alguém que carregava tanto silêncio por dentro.
Eu e Mateus estávamos sentados lado a lado nas cadeiras frias do port?o de embarque. Pessoas passavam arrastando malas, crian?as choravam, anúncios ecoavam pelo teto alto. O mundo seguia normal. Sempre segue.
Embarque para o voo com destino a New Jersey, port?o 9
A voz metálica cortou o ar.
Mateus se levantou devagar. Ele n?o tinha mala. N?o tinha nada além das roupas no corpo e de um futuro incerto nas m?os. Mesmo assim, parecia mais leve do que eu jamais o tinha visto.
Ele se virou para mim.
Os olhos dele n?o eram mais os de um garoto encurralado. N?o havia panico ali. Só gratid?o. E uma for?a silenciosa que ele n?o tinha quando nos conhecemos.
" Alex obrigado."
A palavra pairou entre nós.
Ergui uma sobrancelha, fingindo leveza.
" Pelo quê?"
Ele soltou uma risada curta, nervosa, como se a pergunta fosse absurda.
" Você me salvou. Me ajudou quando ninguém mais ajudaria. Eu teria morrido " a voz dele falhou por um segundo " se você n?o tivesse aparecido."
Olhei para ele por um instante mais longo do que pretendia. Vi flashes: o garoto ferido, assustado, tremendo. E agora ali estava alguém em pé, pronto para caminhar sozinho.
" Esse é o trabalho de um investigador " respondi, mas minha voz saiu mais suave do que eu esperava.
Mateus balan?ou a cabe?a, sorrindo de lado.
" N?o. " Ele respirou fundo. " é o que um amigo faz."
Aquilo me acertou em um lugar que eu n?o estava preparado para defender.
Ele estendeu a m?o "adeus amigo.".
Por um segundo, eu só encarei aquele gesto simples. A m?o dele tremia levemente, n?o de medo, mas de emo??o contida. Quando levantei os olhos, percebi que ele também estava segurando as lágrimas.
E eu vi, com uma clareza dolorosa, que o garoto que encontrei à beira da morte n?o existia mais.
Apertei a m?o dele com firmeza.
" Nunca diga adeus " falei, sustentando o olhar. " Sempre diga até mais."
Os lábios dele tremeram num sorriso.
" Até mais, Alex."
Ele se virou e come?ou a correr em dire??o ao embarque. N?o olhou para trás. Talvez soubesse que, se olhasse, n?o conseguiria ir.
Eu fiquei sentado, observando enquanto ele desaparecia no fluxo de passageiros. Primeiro o cabelo, depois os ombros… até n?o restar nada além de gente desconhecida ocupando o espa?o onde ele estivera.
Senti um aperto silencioso no peito.
Nem tristeza. Nem felicidade.
Algo no meio. Algo humano.
Inclinei a cabe?a para trás e fechei os olhos por um instante. Em meio ao caos, sirenes e mortes dos últimos dias, aquele momento simples parecia um milagre pequeno demais para o mundo e grande demais para mim.
Quando abri os olhos, o port?o já estava quase vazio.
Mateus tinha ido.
E, pela primeira vez em muito tempo, eu permiti a mim mesmo um pensamento egoísta:
Talvez ele consiga ter a vida que eu nunca tive.
Levantei-me devagar, respirando fundo.
Caminhei pela pista em dire??o ao avi?o da OMCB com passos pesados. O vento quente do México batia contra meu rosto, trazendo o cheiro de combustível e poeira. Cada passo parecia me afastar daquele país e, ao mesmo tempo, me prender ainda mais ao que tinha acontecido ali.
Subi a rampa e entrei na cabine.
O interior do avi?o era silencioso demais para um grupo que tinha acabado de sobreviver a uma guerra. O silêncio n?o era de paz. Era de exaust?o.
Rachel estava sentada ao lado de Derrick. Ela olhava para frente, para um ponto inexistente. Os olhos abertos, mas vazios. Como se parte dela ainda estivesse presa naquele por?o.
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Derrick segurava a m?o dela com cuidado, os dedos entrela?ados como se tivesse medo de que ela desaparecesse se soltasse. O rosto dele estava inchado de cansa?o, mas os olhos… os olhos eram de alguém que se recusava a desabar enquanto ela precisasse dele.
Samuel estava alguns bancos à frente, lendo um livro. Ou fingindo ler. As páginas n?o viravam há minutos. O maxilar dele estava travado. Cada músculo do corpo parecia em estado de alerta, como se ele esperasse que o passado pulasse do nada para puxá-lo de volta.
E Jake
Jake parecia ter sido atropelado por um caminh?o e depois xingado pelo caminh?o por ter ficado no caminho. Hematomas subiam pelo pesco?o dele, e o ombro estava enfaixado de qualquer jeito. Mesmo assim, ele mantinha aquele meio sorriso torto que desafiava a própria dor.
Sentei ao lado dele.
O banco rangeu baixo.
Ele soltou um suspiro longo, olhando para o teto.
" Eu n?o acredito que o Torben morreu."
A frase saiu crua. Sem piada. Sem armadura.
Descansei os cotovelos nos joelhos.
" Ele era um chato."
Jake virou a cabe?a devagar, indignado.
" Claro que era. Ele era do administrativo."
Um silêncio de meio segundo e nós dois rimos.
N?o foi uma gargalhada. Foi uma risada cansada, quebrada nas bordas. Daquelas que existem só para impedir algo pior de sair no lugar.
Jake esfregou o rosto com a m?o boa.
" No fundo ele era legal " murmurou. " Queria saber qual era a tal bên??o dele. O cara falava tanto"
Balancei a cabe?a.
" Realmente acabou rápido."
Jake soltou um sopro pelo nariz, um quase riso.
" Rápido demais."
A piada morreu ali. O humor dele sempre vinha com dentes afiados, mas agora estava sem for?a. Mesmo assim, ele mantinha a postura relaxada, o tom leve. Jake nunca mostrava o que doía de verdade. Era o jeito dele sobreviver.
Olhei pela janela.
A pista se estendia infinita sob o sol. Técnicos caminhavam de um lado para o outro. Tudo parecia normal demais.
Minha miss?o estava completa.
Ernesto estava morto. A investiga??o encerrada. A OMCB teria suas respostas.
Ent?o por que aquilo n?o tinha gosto de vitória?
O sentimento era agridoce. Pesado.
Torben. Kelly. Andrés.
Nomes que ecoavam como passos em um corredor vazio. Pessoas que n?o voltariam. Mortes que eu n?o consegui impedir.
Mas Rachel estava viva. Mateus estava a salvo. Duas vidas arrancadas das m?os daquele inferno.
O equilíbrio cruel da balan?a.
Minha vis?o emba?ou antes que eu percebesse o que estava acontecendo. Uma lágrima quente escorreu pelo meu rosto, silenciosa.
" Alex " Jake disse ao meu lado. " Por que você tá chorando? A piada foi t?o ruim assim?"
Piscar. Voltar.
Limpei o rosto com as costas da m?o, for?ando um sorriso.
" N?o. " Minha voz saiu rouca. " Só t? meio cansado."
Jake me observou por um segundo a mais do que o normal. O olhar dele afiado demais para alguém que fingia n?o ver nada. Mas, fiel à própria personalidade, ele n?o pressionou.
Em vez disso, apoiou a cabe?a no encosto e fechou os olhos.
" Dorme um pouco " murmurou. " Quando acordar, a gente vai estar em casa."
"Quero ver o Holland e a Liz"
Olhei mais uma vez para Rachel. Derrick sussurrava algo para ela, voz baixa, suave. Samuel finalmente virou uma página do livro.
O avi?o come?ou a se mover.
Encostei a cabe?a no banco e fechei os olhos. O cansa?o caiu sobre mim como uma maré.
Entre perdas e sobreviventes, entre culpa e alívio, uma única certeza se formou, silenciosa e pesada:
A miss?o tinha acabado e isso era suficiente.
peguei no sono
O impacto das rodas no asfalto me acordou.
Abri os olhos devagar, a mente ainda pesada. Por um segundo, n?o sabia onde estava. Ent?o vi o céu cinzento pela janela do avi?o e senti o frio atravessar a fuselagem.
Londres.
Soltei um suspiro longo e me levantei. Cada músculo do meu corpo protestou. A miss?o no México parecia ter durado anos.
Descemos do avi?o em silêncio. Jake praticamente arrastava Samuel pelo ombro, guiando-o em dire??o aos veículos da OMCB. Mesmo machucado, ele ainda tinha aquele jeito despreocupado, falando alguma coisa que fez Samuel revirar os olhos.
Derrick empurrava a cadeira de rodas de Rachel com um cuidado quase sagrado. Ela continuava distante, o olhar perdido no horizonte cinza. Derrick n?o desgrudava dela nem por um segundo, como se o mundo inteiro fosse um lugar hostil demais para deixá-la sozinha.
Fiquei parado por um instante na pista, observando tudo se dispersar.
Quando levantei o olhar, ela estava ali.
Rebecca me esperava alguns metros à frente, bra?os cruzados, express?o dura como concreto. O vento agitava seus longos cabelos loiros, mas a postura permanecia imóvel.
Caminhei até ela.
Ela aceitou os óculos " Agente Baker " disse ela, sem rodeios. " Você sabe a merda que fez?"
Bufei.
" Rebecca, n?o precisa me chamar de 'agente' só porque tá mandando agora."
O maxilar dela se contraiu.
" Alex, você matou uma pessoa importante. As informa??es de Ernesto seriam extremamente úteis."
Senti o sangue esquentar.
" Informa??es. " Dei uma risada seca. " Ent?o é só isso que importa pra vocês?"
Passei por ela, enfurecido. Dei dois passos antes de ouvir a voz dela, mais baixa e mais pesada.
"Alex."
Parei.
" Eu, Rafael e Wilhelm discutimos sua situa??o."
Virei o rosto de lado, sem encará-la totalmente.
" Você cometeu um crime muito além do aceitável " continuou ela. " Pior que Roma."
O nome caiu como uma pedra no est?mago. Cerrei os punhos.
" Eu sei " respondi. " A pena por matar alguém sob prote??o da OMCB é morte."
O silêncio entre nós durou um segundo inteiro.
" Sim " disse ela por fim. " Mas decidimos que sua habilidade é necessária para a organiza??o. E Samuel pode ser útil."
Virei para encará-la de frente.
O rosto dela n?o tinha triunfo. N?o tinha prazer.
" Portanto " continuou " você será rebaixado para rank 3. E terá um rank 1 como parceiro por tempo indeterminado."
As palavras entraram frias. Clínicas. Administrativas.
Assenti devagar.
" Tá bom, Rebecca." Minha voz saiu vazia. " é sempre assim, né? Utilidade."
Os olhos dela vacilaram por uma fra??o de segundo. Quase imperceptível.
" N?o é só isso " disse ela.
Esperei.
Ela respirou fundo.
" Você salvou pessoas no México. Rachel está viva por sua causa. O garoto também. Isso importa."
Olhei para a pista atrás dela. Para o céu pesado de Londres. Para o mundo que continuava girando como se nada tivesse acontecido.
" Mas n?o importa o suficiente " respondi.
Rebecca n?o rebateu. Porque n?o podia.
Ficamos ali, encarando a verdade nua entre nós: a OMCB n?o era uma família. Era uma máquina. E eu era uma pe?a que ainda funcionava.
Por isso eu estava vivo.
Passei a m?o pelo rosto, sentindo o peso dos últimos dias finalmente se acomodar nos meus ossos.
" Quem é o parceiro? " perguntei.
" Você vai conhecê-lo em breve " disse ela. " Descanse hoje. Amanh? você volta ao trabalho."
Claro.
Sempre amanh?.
Dei um meio sorriso cansado.
" Bom te ver de novo, Rebecca."
Ela hesitou.
" Bom te ver vivo, Alex."
Virei as costas e comecei a andar. Cada passo ecoava na pista úmida, misturando exaust?o e uma estranha sensa??o de continuidade.
Puxei meu celular havia algumas mensagens do Holland e da Liz.
Olhei e dei um leve sorriso.

