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Capítulo 7: O Instinto e o Segredo

  Os meses que se seguiram à tragédia passaram como um borr?o indistinto de dor, suor e uma determina??o de a?o. A vida de Moisés, outrora simples, dividiu-se em duas realidades paralelas e irreconciliáveis. De dia, ele desempenhava o papel de um estudante normal, um órf?o que fora silenciosamente acolhido pela família do seu melhor amigo de infancia. Eles eram bondosos, respeitando o seu luto silencioso com uma delicadeza que o impedia de se afogar completamente na sua perda, mas ele era um fantasma na sua própria vida, a passar pelos dias como uma sombra.

  Pois a sua verdadeira vida come?ava ao amanhecer e ao anoitecer. Nessas horas crepusculares, ele estava no bosque, o seu santuário de treino, um lugar que se tornara mais seu lar do que qualquer casa com um teto.

  Cada soco que desferia contra o ar, cada esquiva que o fazia rolar pela terra húmida, cada explos?o de energia dourada que irrompia das suas m?os, era alimentada pela memória indelével do fumo negro a subir para o céu. A sua dor transformou-se em combustível. A sua tristeza, em foco. A sua culpa, em precis?o. Os seus ataques, antes hesitantes, tornaram-se mais rápidos, mais precisos, mais letais. Ele n?o treinava; ele expiava.

  Numa tarde de outono, com as folhas a caírem à sua volta como lágrimas de ouro e carmesim, algo mudou. Durante um combate de treino, o Guardi?o movia-se com a sua gra?a etérea habitual, um fantasma de luz que parecia intocável, as suas esquivas fluidas e os seus contra-ataques uma li??o de economia de movimento. Mas Moisés já n?o o seguia; ele come?ou a antecipar. Num movimento fluido, sem que a sua mente consciente sequer registasse a inten??o, ele girou. N?o onde o Guardi?o estava, mas onde ele ia estar. O seu punho, envolto numa aura dourada, encontrou o peito do Guardi?o. O golpe n?o foi forte, pois o seu alvo era feito de luz, mas foi sólido. Foi real.

  Pela primeira vez em meses, um sorriso formou-se no rosto etéreo do Guardi?o. Finalmente.

  O treino intensificou-se. E numa dessas sess?es, o Guardi?o decidiu levar Moisés para além dos seus limites conhecidos. Ele atacou com uma velocidade que Moisés nunca antes vira, uma lan?a de luz pura a materializar-se a centímetros do seu rosto. N?o havia tempo para pensar, para processar a amea?a, para ordenar ao seu corpo que reagisse. Mas o seu corpo moveu-se. Sem o seu comando, o seu torso inclinou-se para trás num angulo impossível, a sua cabe?a a desviar-se para o lado. A lan?a de luz passou a milímetros da sua orelha, o calor da sua energia a beijar-lhe a pele, antes de se desfazer numa explos?o de luz contra uma árvore atrás dele.

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  Moisés ficou parado, ofegante, o cora??o a martelar contra as costelas como um prisioneiro a tentar escapar. Ele n?o tinha feito aquilo. Ou melhor, a sua mente n?o o tinha feito.

  Ah, a voz do Guardi?o ecoou, cheia de um espanto reverente. Despertou. A tua heran?a como Digno.

  "O... o que foi isto?", gaguejou Moisés, tocando na sua orelha, ainda a sentir o calor fantasma.

  Chama-se Instinto de Batalha, explicou o Guardi?o. é um estado de consciência que todos os Magic Dourados experientes se esfor?am por alcan?ar, um ponto onde o corpo reage sem a hesita??o da mente, onde a a??o precede o pensamento. No entanto, em ti... é diferente. Mais puro. Mais rápido. Sendo tu o primeiro Digno, a tua execu??o desta habilidade inata é consideravelmente mais eficaz.

  O Guardi?o fez uma pausa, a sua forma a cintilar. Mas a mesma regra se aplica: contra um novo tipo de ataque, um estilo de luta que o teu Instinto nunca viu, ele estará cego. Terás de sobreviver tempo suficiente para que ele estude os padr?es. Só depois irás dominar o combate.

  O espírito de luz aproximou-se, a sua express?o a tornar-se séria. Agora que despertaste este dom, estás pronto para o teu próximo passo. A academia. E lá, as regras do jogo mudam drasticamente.

  "O que queres dizer?", perguntou Moisés.

  Lá, a tua maior arma será o teu anonimato. Deves aprender a ocultar a tua energia, a suprimir o teu poder. A transforma??o completa? A voz do Guardi?o era um aviso severo. Guarda-a como o teu último recurso, um segredo a ser usado apenas em situa??es de vida ou morte.

  O teu próximo objetivo é este: vamos estabelecer um limite. Cinquenta por cento. Com 50% do teu poder, tu permaneces na tua forma humana normal. Sem a aura dourada, sem os olhos a brilhar. Para um observador casual, parecerás um humano normal, talvez um pouco mais forte. Mas n?o te enganes. O Guardi?o fez uma pausa, para dar ênfase. A tua natureza como Digno é t?o potente que, mesmo com essa limita??o, a tua for?a e velocidade ser?o imensas, muito superiores às de qualquer humano. O teu desafio na academia n?o será o de ser forte. O teu desafio será o de parecer fraco.

  Moisés absorveu a informa??o, o seu cérebro a processar a nova estratégia. "Ent?o... eu tenho de me conter constantemente. Fingir que me esfor?o numa luta, quando na verdade poderia acabar com ela num segundo?"

  Precisamente, confirmou o Guardi?o. A ideia é fazer com que todos, aliados e inimigos, pensem que esses 50% s?o o teu poder total. Deixa que te subestimem. Finge que essa é a tua capacidade máxima. Porque no dia em que fores for?ado a libertar os 100% e a transformar-te... ninguém estará preparado para o que virá a seguir. A surpresa será a tua maior aliada.

  Moisés assentiu, o seu olhar determinado. O seu mundo de treino estava prestes a mudar. O treino de poder bruto tinha acabado. O treino de controlo, estratégia e subterfúgio tinha acabado de come?ar.

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